segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Sonetando... ?! (rs)
A busca finda da Borboleta
Soprando de leve o vento
Quase em meus ouvidos canta
O doce nó na garganta
Desfeito, em fugaz alento
A tez arrepia; acende
Face ao seu confesso anseio
De comigo ter esteio
- este amor que a mim se rende
Faz rubra a face fogosa
D'um desejo insano, imenso!...
(poema de amor sem senso)
E ao pintar o céu de rosa
Borboleta voa, prosa
E o Pardal aplaude
... intenso!
Srta. M
04-12-2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Face a face com "Deus".
Tudo o que foi, o que é e o que será. Oh, véu que nenhum mortal levantou até agora!
Será que há consciência por trás da consciência? Ou a manipulamos de acordo com uma conveniência que a torna mais inconsciente que a própria inconsciência?
Chiste? Ato falho? Não, seria mais! A consciência manipulada seria um enganar-se voluntariamente, ou um descobrir-se inconsciente? Descobrir-se do véu da consciência, sem nem ao menos perceber os caminhos enigmáticos que o levaram até lá. E perder de vista a paisagem tão sonhada, a busca de toda uma vida: o que se esconde atrás do véu?
Não há nada que os sonhos nos tragam e que ainda não nos pertençam. Não há verdade que um véu possa encobrir que ainda não saibamos. Certeza incerta, apenas desviamos o olhar diante da [des]coberta. Tolos!, sentimos calafrios de medo de nós mesmos, de nossas sensações, nossas atitudes (ou falta delas), nossas reações diante da consciente inconsciência que nos leva ao início-meio-fim do ser-nos-nos!
Preferimos as questões, pois as respostas apavoram. Seguimos perguntando sem nem aguardar pelas respostas que aprendemos, desde sempre.
De onde vêm as criaturas em nossos sonhos? Como surgem-nos tão perfeitas, tão exatamente-o-que-desejamos?
Quem nos sonda o coração e incansavelmente busca compreendê-lo? Quem, diabos!, joga o enigma em nossos sonhos e deixa apenas o rastro d'um perfume no ar...?
Perdidos, porém encontrados. Sem jamais ter-lhes olhado a face. Será?
Quem bate à porta de nossa casa aguardando explicações? Oh, Deuses!
E lá os Deuses buscam nossas respostas! Eles já as possuem.
E lá os Deuses fazem-nos perguntas! Já sabem as respostas.
Que Deus é esse?! De onde veio?
Tenhamos coragem! Basta ousar levantar o véu da consciência: o "Deus", que mãe Isis jamais escondeu dos mortais...
Face a face. Nós e o nosso Deus. Duas cadeiras frente a frente. Uma delas vazia. A face é a mesma.
Que Deus é esse? Hã?!
Srta. M
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Terra Infértil
Teu sorriso tímido
A brincar de esconde-esconde
Desliza
Em graciosas frestas permissivas
Ao olhar...
Pelo buraco da fechadura
A-porta
(entreaberta).
O doce balançar das tuas ondas faciais
Ligeiras, põem-se a embalar
Meus desejosos sonhos de ninar.
Sinfonia de pássaros e ventanias
Orquestram o silencioso passear
Das borboletas
Violetas!
A fazerem festa - pra ti
dentro de mim.
Balões de ar
Levam a ti meu mais profundo suspirar
De esperança.
Sob a sombra das mangueiras
Águas preparam as goiabeiras
Para a breve colheita
Do que está prenhe em nós!
Outrora germinado
Dentre os verdes arbustos
De exuberantes flores
Que se transmutam
Do branco ao lilás.
Passeando pelo amarelo
Exalam o perfume dos nossos toques
- e retoques,
No ar de uma terra
Cansada
D'um escasso colher
Tendo tanto o que plantar...
Por não ter, no solo,
Amor para adubar.
Srta. M
Gozos da Alma
Estou partindo agora
Mas sinto, não posso ir
Porque meu ser deixei contigo
Oh, tormento, ter que partir!
São os nossos corpos
A moverem-se em direções opostas
E não as nossas almas
Que se entrelaçam em vôos noturnos...
Vem, amor, saber amar!
Sentir o frescor em nossas faces
O hálito meu nos lábios teus.
Quem aprende a dar - amor
Não precisa temer a dor
E quem já amargou um sofrimento
Experimentou seu renascimento.
Deixou restos de paixão
Enterrou os desenganos
São amores e perdão...
Covardia, desilusão
Maliciosa apreensão
Sofreguidão...
Gozos da alma!
Srta. M
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Será pedir demais?
"Preciso poder contar com você
ter outras eternidades ao seu lado
e me divertir com os caprichos da nossa vontade
ter outras eternidades ao seu lado
e me divertir com os caprichos da nossa vontade
Preciso poder explodir nosso big bang
sempre que for necessário um novo começo
ou até mesmo pelo prazer da novidade
sempre que for necessário um novo começo
ou até mesmo pelo prazer da novidade
Poder te olhar e já entender
sem ser preciso desdizer
nem dizer toda verdade
sem ser preciso desdizer
nem dizer toda verdade
Poder errar e não me esconder
não ter que ter nenhum poder
e poder não ter
não ter que ter nenhum poder
e poder não ter
Será querer demais ?
Será pedir demais ?
Será poder demais ?
Será pedir demais ?
Será poder demais ?
Preciso poder gritar com você
e preservar o respeito em potes transparentes
etiquetados com o prazo de validade
e preservar o respeito em potes transparentes
etiquetados com o prazo de validade
Preciso poder me satisfazer
por estar por perto, mesmo afastado
e confiar, na certeza da cumplicidade
por estar por perto, mesmo afastado
e confiar, na certeza da cumplicidade
Preciso poder ser impreciso."
- Preciso Poder, Jay Vaquer -
sábado, 28 de novembro de 2009
Obra de Talha
Sua canção é por demais airosa
Para cantar-se-lhe a alma faminta
D'uma marcha contínua e penosa
- a pés descalços -, rastejante e tinta!
Segue-se-me este caminhar lúgubre,
E mascara as rajas solares em mi'a tez
Flamejante d'uma alegria fúnebre
Que busca o silêncio; melódica palidez.
Odisséia onírica de deuses em batalha
Eleva-se-lhe veemente, em nome d'honra
Jamais derramada por rubra navalha
Cega da espera d'um precoce partir
Que se me faz velar, obra de talha!
Em vigília de amor, zelosa, a reluzir.
Srta. M
27 de novembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Homenagem de um amigo a Srta M.
"A lua"
"Lua, luminosa e tão distante.
Espero infante tocar-lhe os cachos.
Na noite funda e triste
Minha alegria persiste para te encantar.
Lua, tão breve e intrigante
É sempre instigante esse teu olhar.
De fases e de venturas,
Tão charmosa, tão noturna,
Espero que nunca chegue a passar.
Pergunto à lua de onde vem o brilho,
Se empresta do sol ou reflete de mim.
Tão tolo!
Como imaginar, tão celeste ser
Roubar de tão baixo
A luz tão brilhante?
É, me figuro à noite
Vaguante a observar,
Perdendo os olhos,
Nos olhos o luar.
Perdendo a sanidade
Na insanidade te olhar.
Assim, me passam as noites
Tão breves cortadas pela luz do sol
Me traz à Terra, me vira do avesso,
Espero o recomeço
Se a noite chegar."
Marco Ferreira
"Lua, luminosa e tão distante.
Espero infante tocar-lhe os cachos.
Na noite funda e triste
Minha alegria persiste para te encantar.
Lua, tão breve e intrigante
É sempre instigante esse teu olhar.
De fases e de venturas,
Tão charmosa, tão noturna,
Espero que nunca chegue a passar.
Pergunto à lua de onde vem o brilho,
Se empresta do sol ou reflete de mim.
Tão tolo!
Como imaginar, tão celeste ser
Roubar de tão baixo
A luz tão brilhante?
É, me figuro à noite
Vaguante a observar,
Perdendo os olhos,
Nos olhos o luar.
Perdendo a sanidade
Na insanidade te olhar.
Assim, me passam as noites
Tão breves cortadas pela luz do sol
Me traz à Terra, me vira do avesso,
Espero o recomeço
Se a noite chegar."
Marco Ferreira
Retalhos poéticos (...)
Vício
Sou bailado de moça manhosa
Aérea imagem projetada em dança
Que, sem giz ou carvão, faz-se prosa
E desenha, em cores, sua criança.
Ouço-me sem prévia identificação
Oh, beleza!, enojante melodia de mim
Intrínseco mar visceral de infecção
Eu arrebatada, fétida, carmim!
Busco-me expulsa, exilada, em revoada
Fugitiva d'um querer-te-me tamanho
A preparar sob os olhos mi'a cilada.
Cerro-me em ti, desejo insano
Tateando encontrar-te, rijo castanho
Em cada fugaz olor, descafeinada.
Srta. M
Sou bailado de moça manhosa
Aérea imagem projetada em dança
Que, sem giz ou carvão, faz-se prosa
E desenha, em cores, sua criança.
Ouço-me sem prévia identificação
Oh, beleza!, enojante melodia de mim
Intrínseco mar visceral de infecção
Eu arrebatada, fétida, carmim!
Busco-me expulsa, exilada, em revoada
Fugitiva d'um querer-te-me tamanho
A preparar sob os olhos mi'a cilada.
Cerro-me em ti, desejo insano
Tateando encontrar-te, rijo castanho
Em cada fugaz olor, descafeinada.
Srta. M
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Bolhas de Sabão
Às vezes pergunto-me onde se esconde a sombra em mim. O ardente calor do sol, estampado na face, sem direito a férias, faz desidratar os olhos costumeiramente repletos de um brilho instigante, convidativo ao mergulho sedento, curioso, ousado - até!
Mas o sol insiste em brilhar, 'inda mesmo quando a chuva impede que queime a tez já enrugada de suas rajas. E chove, chove, chove. Na face, tudo; sinais saltitantes de uma alegria tão eufórica que se mostra e esconde-se de si. No semblante, a memória d'um sorriso saudoso, daquela honestidade sábia, mestre, conduzindo os músculos da face ao bailado pranteado dos olhos repletos de sentir.
As mesmas bochechas naturalmente "rougeadas" de um [se ser], latejam, agora, avermelhadas, de um calor interno, aprisionado; um grito mudo de sons nunca pronunciados. Ah!, mas a língua esperta e ansiosa move-se sem rumo e sem sumo, preocupada em manter o prumo, sem nem ao menos saber pra quê.
E fala, fala, fala. Apenas uma voz a mais. Palavras que, de tão usuais, já nem se fazem mais ouvir. Ecoa um apressado zunido, divertido até, soltando gargalhadas como bolhas de sabão, ao vento. Onde será que vão parar? Em ouvidos já cansados e surdos! Muito barulho, por nada; enquanto o silêncio pede para ser decifrado e as narinas mais aguçadas o conseguem farejar, por alguns segundos, distraído.
Cores de Frida Kahlo espalham-se pelo corpo, pela cama, pelo chão. E pintam de escarlate, não as unhas de felina, mas as lembranças tortas da menina, que, por conta própria, borda a estampa do seu peito com A escarlate letra, autorizando a culpa a penetrar, consentida, em seu pesar.
E torno a perguntar: Onde está a sombra de mim, a chuva de mim, as flores e as cores do meu jardim?
Permita-me, oh Lua!, sair da direção do Sol, para que a luz refletida aqui não me faça murchar. Quero, também, os dias nublados, a noite escura, a lua-nova; o merecido descanso, à sombra de mim mesma: eu e meus sons, meus tons, minhas bolhas de sabão soltas ao vento.
Mas o sol insiste em brilhar, 'inda mesmo quando a chuva impede que queime a tez já enrugada de suas rajas. E chove, chove, chove. Na face, tudo; sinais saltitantes de uma alegria tão eufórica que se mostra e esconde-se de si. No semblante, a memória d'um sorriso saudoso, daquela honestidade sábia, mestre, conduzindo os músculos da face ao bailado pranteado dos olhos repletos de sentir.
As mesmas bochechas naturalmente "rougeadas" de um [se ser], latejam, agora, avermelhadas, de um calor interno, aprisionado; um grito mudo de sons nunca pronunciados. Ah!, mas a língua esperta e ansiosa move-se sem rumo e sem sumo, preocupada em manter o prumo, sem nem ao menos saber pra quê.
E fala, fala, fala. Apenas uma voz a mais. Palavras que, de tão usuais, já nem se fazem mais ouvir. Ecoa um apressado zunido, divertido até, soltando gargalhadas como bolhas de sabão, ao vento. Onde será que vão parar? Em ouvidos já cansados e surdos! Muito barulho, por nada; enquanto o silêncio pede para ser decifrado e as narinas mais aguçadas o conseguem farejar, por alguns segundos, distraído.
Cores de Frida Kahlo espalham-se pelo corpo, pela cama, pelo chão. E pintam de escarlate, não as unhas de felina, mas as lembranças tortas da menina, que, por conta própria, borda a estampa do seu peito com A escarlate letra, autorizando a culpa a penetrar, consentida, em seu pesar.
E torno a perguntar: Onde está a sombra de mim, a chuva de mim, as flores e as cores do meu jardim?
Permita-me, oh Lua!, sair da direção do Sol, para que a luz refletida aqui não me faça murchar. Quero, também, os dias nublados, a noite escura, a lua-nova; o merecido descanso, à sombra de mim mesma: eu e meus sons, meus tons, minhas bolhas de sabão soltas ao vento.
Srta. M
23-11-2009
23-11-2009
Esvaindo-me.
Meu trânsito parou! Não se observa o natural movimento dos astros – meus! Nada entra, nada fica. Tudo se esvai... Em náuseas torturantes a maré baixa traz aquela seca mansidão de quem já gotejou em demasia - orvalhos de si - sobre a face pálida.
.
.
O corpo já não sustenta o peso da alma, que soca, esmurra, lateja. Olhos que não se suportam abertos diante da luz. O ‘tum, tum, tum” é samba de moça em finos saltos, a bailar em minha cabeça, enquanto tento fechar as janelas da alma, fugindo de um brilho que não se vai e uma noite que nunca chega.
.
E, mais uma vez, o sustento se esvai... e, em mim, nada alimenta. De mim, tudo exposto: eu recusada, eu mal digerida, eu regurgitada.
.
O rubor em minha face. O arder do pensamento. O pulsar do sentimento. A frágil coluna a mim concedida não sustenta o que sou. Eu dói. Eu mói. E mim sussurra os gemidos.
.
E, mais uma vez, o sustento se esvai... e, em mim, nada alimenta. De mim, tudo exposto: eu recusada, eu mal digerida, eu regurgitada.
.
O rubor em minha face. O arder do pensamento. O pulsar do sentimento. A frágil coluna a mim concedida não sustenta o que sou. Eu dói. Eu mói. E mim sussurra os gemidos.
Srta. M
16-11-2009
16-11-2009
Amizade é Amor
Canção do Mais
E foi assim: a melodia
conversando com as letras!...
N'um silêncio ensurdecedor
do exagerado falar.
Vozes disputando suspiros
no espaço ligeiro, boquiaberto,
de um admirar.
Havia tanto, e tão pouco
no desejo imanente e ingênuo
de fazer-se mostrar
o que implodia, sorrateiro
tentando despistar.
Era uma corrida em disparos
amedrontada da escassez
do tempo, da presença
do breve e eterno encontrar.
Vozes, vorazes, voluptuosas
Emboladas, atropeladas, cantaroladas!...
Letra sem melodia
Melodia sem letra
Libertas, despertas, espertas
A encontrar, sem buscar
melodia na letra
letra na melodia.
...
E foi assim: infinito
em canções do tudo, do muito
do mais!
Srta. M
13-11-2009
Criando laços
Meio Inteiro
Queria pequenez
Meio Cora Coralina
Queria pouco
- e muito
Essa menina!
Queria meio, recheio
Isso, aquilo,
- puro anseio...
Mas fez-se inteira
Essa heroína!
Meio filha
Meio mãe
Meio pai
Meio eira
Meio beira!...
Queria a vida
A brincadeira
A arte pueril
De ser faceira!
Ah, dia
Ah, noite
Ah, estrela!...
Que por tão muito
- e simples
Sonhou-se ser
Hoje, Cora...
Vibrante
Exuberante
De tão elegante!
Srta. M
16-11-2009
Acrosticando
SORRISOS
Sentimentos revelados, enfim!
Ocaso do almejante partir
Risonho tal qual seu sonhar
Rutilante em estrelas sem fim!
Intimidante em fazer-se impelir
Salpicantes borbulhas sonoras, ao ar
Ofuscando sentidos desavisados
Sorrindo-se-lhe!, assim, por fim, tão afim...
13-11-09
Sentimentos revelados, enfim!
Ocaso do almejante partir
Risonho tal qual seu sonhar
Rutilante em estrelas sem fim!
Intimidante em fazer-se impelir
Salpicantes borbulhas sonoras, ao ar
Ofuscando sentidos desavisados
Sorrindo-se-lhe!, assim, por fim, tão afim...
13-11-09
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Eu, o medo e a vida.
E eu? Que tenho medo
Do medo
Que me obriga a correr
Em direção a mim.
E eu? Que tenho medo
Da vida
Que me deixa livre
Para fugir de mim.
E eu? Que tenho medo
Do medo da vida
Da vida de medo
Da paralisia
Da correria
Do caminhar entre as pedras
Do início
E do fim.
E eu? E o medo? E a vida?
Que já não sei mais
Como diferenciar...
04-11-2009
Do medo
Que me obriga a correr
Em direção a mim.
E eu? Que tenho medo
Da vida
Que me deixa livre
Para fugir de mim.
E eu? Que tenho medo
Do medo da vida
Da vida de medo
Da paralisia
Da correria
Do caminhar entre as pedras
Do início
E do fim.
E eu? E o medo? E a vida?
Que já não sei mais
Como diferenciar...
04-11-2009
Malditas Saúvas!
Saúvas, malditas! Saúvas!
De onde surgem tão alegres, tão dispostas?
Veneno às saúvas! E sigamos, vagarosamente...
Na janela um contraste: verdes folhas de amendoeiras, clarão azul do céu, ofuscantes manchas douradas do sol que me convida à vida. O vento que sopra em meus cabelos vem dizer que todos os dias são um milagre, só para relembrar o que eu já deveria saber, mas não sei se simplesmente "sei". Ah, sim, tenho consciência do processo!, responderia - com aquele ar de seriedade de quem racionaliza uma cena irracional.
.
Enquanto o vento sopra, fazendo o seu trabalho diário, persistindo em instigar minhas sensações e tocar os meus sentidos, minha mente trabalha e meu corpo permanece em anestesia. Só consigo realizar que há nós "enjoados" em minhas longas madeixas cor de mel.
.
E a menina Pollyana pensa: Não são lindos os meus cabelos cor de mel? Não são lindos os nós que o amigo vento fez para mim? Como sou feliz por ter o vento, a amendoeira, o sol, o céu...!
De tanto pensar em ser feliz, a menina Pollyana conseguia de fato ser feliz? A menina Pollyana se permitia sentir? Acho que pulei esse capítulo.
.
Ah, o jogo-do-contente! Terei deixado de jogar em algum momento? Terei aprendido a jogar?
.
Mas as saúvas não me saem da cabeça! Sim, da cabeça, porque no coração eu não sei o que vai.
Nos momentos de exaustão, de cansaço extremo, de entregar os pontos (estou confessando isso, ops?), ah, eu quero matar as saúvas alegres!
.
Porque as malditas saúvas não desistem, jamais. As malditas e persistentes saúvas vivem tão pouco e, ainda assim, vivem dispostas.
.
Enquanto elas vivem, eu penso. Penso em pisoteá-las, malditas!
Esmagando-as, eu finalmente sinto.
Fim de jogo.
03-11-2009
De onde surgem tão alegres, tão dispostas?
Veneno às saúvas! E sigamos, vagarosamente...
Na janela um contraste: verdes folhas de amendoeiras, clarão azul do céu, ofuscantes manchas douradas do sol que me convida à vida. O vento que sopra em meus cabelos vem dizer que todos os dias são um milagre, só para relembrar o que eu já deveria saber, mas não sei se simplesmente "sei". Ah, sim, tenho consciência do processo!, responderia - com aquele ar de seriedade de quem racionaliza uma cena irracional.
.
Enquanto o vento sopra, fazendo o seu trabalho diário, persistindo em instigar minhas sensações e tocar os meus sentidos, minha mente trabalha e meu corpo permanece em anestesia. Só consigo realizar que há nós "enjoados" em minhas longas madeixas cor de mel.
.
E a menina Pollyana pensa: Não são lindos os meus cabelos cor de mel? Não são lindos os nós que o amigo vento fez para mim? Como sou feliz por ter o vento, a amendoeira, o sol, o céu...!
De tanto pensar em ser feliz, a menina Pollyana conseguia de fato ser feliz? A menina Pollyana se permitia sentir? Acho que pulei esse capítulo.
.
Ah, o jogo-do-contente! Terei deixado de jogar em algum momento? Terei aprendido a jogar?
.
Mas as saúvas não me saem da cabeça! Sim, da cabeça, porque no coração eu não sei o que vai.
Nos momentos de exaustão, de cansaço extremo, de entregar os pontos (estou confessando isso, ops?), ah, eu quero matar as saúvas alegres!
.
Porque as malditas saúvas não desistem, jamais. As malditas e persistentes saúvas vivem tão pouco e, ainda assim, vivem dispostas.
.
Enquanto elas vivem, eu penso. Penso em pisoteá-las, malditas!
Esmagando-as, eu finalmente sinto.
Fim de jogo.
03-11-2009
Arrogância
Palavras calam minhas vozes
Covardes e sedentas; arredias!
Alfabetizando sensações vazias
Tagarelas, de si mesmas algozes.
Desatados nós, sufocantes
Libertam o que de si não se vai
Gozo que não se permite um só ai
E dores que latejam, incessantes.
Há prazer no pesar do arrogante
Que tritura os próprios joelhos
Por um perdão atroante?
Salva-se o inocente pecador
Juiz de sua própria condenação
Deferida a vã libertação?
02-11-2009
Amarga Doçura
Ah, estou farta de juras de amor! Desses amores selados em pontes parisienses, sobre as águas glamourosas do Siena. Centenas de cadeados enfeitam seculares grades de ferro enlaçando corações que desfilaram apaixonadamente por aqueles chãos já gastos dos passos de tantos corpos a sustentarem beijos cinematrograficamente eternizados.
Amores possíveis esculpidos em mármore de carrara; amores que se pensavam impossíveis, mas desde sempre estiveram lá esperando a retirada dos excessos para que tomassem vida: parla, parla! Não!, não quero ver olhares de paixão em cada escultura que toma vida dentro de mim.
Quero mais é me esconder num daqueles cantões suíços, onde a cultura da prática substitui qualquer expressão de calor humano. Não há perfumes inebriantemente amadeirados que hipnotizam os amantes cantonenses. Os corações pulsam conforme a razão: em horários minuciosamente pre-determinados por relógios - Rolex -, antes que endureçam de frio.
L'amour, l'amour... Oh, céus!
Estou realmente farta de tantas juras, que não foram feitas para mim!
30-10-2009
Amores possíveis esculpidos em mármore de carrara; amores que se pensavam impossíveis, mas desde sempre estiveram lá esperando a retirada dos excessos para que tomassem vida: parla, parla! Não!, não quero ver olhares de paixão em cada escultura que toma vida dentro de mim.
Quero mais é me esconder num daqueles cantões suíços, onde a cultura da prática substitui qualquer expressão de calor humano. Não há perfumes inebriantemente amadeirados que hipnotizam os amantes cantonenses. Os corações pulsam conforme a razão: em horários minuciosamente pre-determinados por relógios - Rolex -, antes que endureçam de frio.
L'amour, l'amour... Oh, céus!
Estou realmente farta de tantas juras, que não foram feitas para mim!
30-10-2009
Homenagem de um amigo a Srta. M.
À poetisa impecável em olhares oceânicos,
Àquela dos fios dourados em raios a-Rá-luzentes...
Para (a) insondável Musa que corta e molda,
com amor,
...dedico essas frágeis linhas tremeluzentes...
Muito obrigado!
"Quando você começa a cair, me ajoelho e redireciono minhas preces
A que outro deus buscarei se tombares?
Minha voz clama em vão...
Um canto de anjo perdido...
No meio de uma frase palavras faladas passam a chegar em linhas
É como abrir o jornal e ler a manchete de uma tragédia sob a fotografia da Musa que inspira...
Minha língua salga, confrontado com a onírica realidade de ter de ser deus por deus
E eu sinto medo...
Cadê o Riso que impera?...
Aquele que chega sem avisar - de surpresa, amante
Não sabendo a que deus adorar, resolvi adorar todos eles
- Mãe Ísis e O Único -
Não sabendo pr'a que deus voltar minhas súplicas, resolvi destruir todos eles
Cortei-me em pedacinhos
Juntaste os pedacinhos, dando-me continuidade
Uma rosa nos Campos Elísios - não nasce, não murcha e não morre; eterna e sem vida
Musa - todas Elas n'Uma só, longe das montanhas esquecidas da Trácia
Num mundo onde vulgares machos mortais riem para que choremos
Na temida Cidade Maravilhosa segues publicando o amor em versos e prosa - pr'onde partiu o nexo a caminhar?
Por ti - vou contar algumas vezes até o infinito
Por ti - mergulhar duas vezes no mesmo rio
E ainda antes que essa noite acabe,
...verei o Sol brilhar no teu olhar mais uma vez..."
Adriano do Carvalho
05-10-2009
Casulo em volúpias
Feixes de luz anseiam por deslizar
Entre as aflitas e acastanhadas frestas da cortina
Descobrindo-me, nua, a realizar
Esta borboleta que, em seu casulo, desatina.
Minha face encontra-se em rajas de fogo
Atiça-me o sentido; intenso, cobiçoso
Dança em meu corpo o bailar de um jogo
Que me venda os olhos; persegue-me, apetitoso.
Pulsante que só ela, oh, Luz!, acenda-me!
Devore-me a carne fria, o olhar opaco
Transmute-me no Mais, desfastie-me!
Faça irromper volúpia neste casulo fraco.
Busque-me, Vida, antes que ouse fugir
Resgate-me; impeça que já me tenha perdido ao léu
Faça-me menos cânone e nem tanto meretriz
Costure-me em meu cerne, mas liberte-me desta raiz.
02-10-2009
Acrosticando
Em homenagem a um A!migo de valor inestimável.
Obrigada por Ser em minha vida.
Obrigada por cada gota de sabedoria que respinga aqui.
A sua felicidade é hoje, agora e sempre.
Permita-me, apenas, partilhar.
Amo-te!
Tatuebra
Andarilho atemporal de tantas Batalhas
Discípulo honrado dos Grandes Mestres
Rascunha a morte que não lhe é concedida
Imperador, Rá!, dos Campos de Vida!
Atreve-se a cegar-se diante de seus feitos
Nefasta trama de recusas reticentes
Ordem, honra, força e glória - e os pés é que penem!
Srta. M
02-10-2009
Obrigada por Ser em minha vida.
Obrigada por cada gota de sabedoria que respinga aqui.
A sua felicidade é hoje, agora e sempre.
Permita-me, apenas, partilhar.
Amo-te!
Tatuebra
Andarilho atemporal de tantas Batalhas
Discípulo honrado dos Grandes Mestres
Rascunha a morte que não lhe é concedida
Imperador, Rá!, dos Campos de Vida!
Atreve-se a cegar-se diante de seus feitos
Nefasta trama de recusas reticentes
Ordem, honra, força e glória - e os pés é que penem!
Srta. M
02-10-2009
Navegante.
Eis que o meu barquinho chegou
Não sei se nele embarco
Se fico a mirar sua viagem
Ou entro só de passagem.
A tardinha já caiu
O sol cedeu lugar à lua
Meu barquinho continua no cais
Solidário, aguardando os meus "ais".
Ai, isso; ai, aquilo; ai de mim; ai de nós!
Cansada de tantos "ais"
Agora eu quero é mais!
E o barquinho vai... a tardinha foi
Mas sob a luz da noite-guia
Sem miragem e sem passagem
Embarquei em cima da hora
Fui-me embora!
Enfim, estou no agora.
02-10-2009
Não sei se nele embarco
Se fico a mirar sua viagem
Ou entro só de passagem.
A tardinha já caiu
O sol cedeu lugar à lua
Meu barquinho continua no cais
Solidário, aguardando os meus "ais".
Ai, isso; ai, aquilo; ai de mim; ai de nós!
Cansada de tantos "ais"
Agora eu quero é mais!
E o barquinho vai... a tardinha foi
Mas sob a luz da noite-guia
Sem miragem e sem passagem
Embarquei em cima da hora
Fui-me embora!
Enfim, estou no agora.
02-10-2009
Apenas uma agulhada!
Sessenta anos e fugiu de casa
Com um pequeno pau na mão
Pensando que a força que lhe faltava
O mísero objeto forjava.
-
O delírio de um falo
O cantar rouco de um galo
Que tem mais de garnizé
A outra coisa qualquer.
-
E faltando algo a dizer
Para os tais 15 minutos de fama
Há quem mostre o pau
E esconda a face
Toda enterrada na lama.
01-10-2009
Com um pequeno pau na mão
Pensando que a força que lhe faltava
O mísero objeto forjava.
-
O delírio de um falo
O cantar rouco de um galo
Que tem mais de garnizé
A outra coisa qualquer.
-
E faltando algo a dizer
Para os tais 15 minutos de fama
Há quem mostre o pau
E esconda a face
Toda enterrada na lama.
01-10-2009
Acrosticando
Profundidade.
-
Perco meu juízo, meu norte
Rogo por meu senso e tento
Ostentar por covardia a minha sorte
Fazendo poeira em ressecado cimento
Unto-me com óleo que santo não é
Nado em água benta por outro Pai
Dou-me in cash, nada de pinga-pinga
Intuo o flash e fujo
Deito no chão frio
Ansiando pela força que chama ao centro
Despenco, fria, suada, em chamas de calafrios
Enterro-me em mim.
01-10-2009
-
Perco meu juízo, meu norte
Rogo por meu senso e tento
Ostentar por covardia a minha sorte
Fazendo poeira em ressecado cimento
Unto-me com óleo que santo não é
Nado em água benta por outro Pai
Dou-me in cash, nada de pinga-pinga
Intuo o flash e fujo
Deito no chão frio
Ansiando pela força que chama ao centro
Despenco, fria, suada, em chamas de calafrios
Enterro-me em mim.
01-10-2009
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Somos nós!
O não convencional é anti-social
O não conveniente é excêntrico
O não tradicional é bizarro
O não condizente é insano.
Dizem por aí?
... e aí vamos nós!
A quem ouve mais, menos som
A quem fala mais, menos voz
A quem enxerga mais, menos visão
A quem sente mais, solidão.
Dizem por lá?
... e lá vamos nós!
Os anti-sociais estão surdos
Os excêntricos estão mudos
Os bizarros estão cegos
Os insanos estão (se)gregados.
Dizem por aqui?
... e aqui vamos nós!
Convencionamos a exclusão que ensurdece
A conveniência que emudece
A tradição que cega
E a condição que enlouquece: ousadia lúcida de quem teima em berrar.
Disseram, já?
... e fomos nós!
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Retalhos elocubrados
Encontrou-a já desfalecida, ao lado do túmulo de seu pai. Ao despertar disse-lhe: ao menos há vista para o mar; prefiro. Fez-lha, então, uma proposta silenciosa e partiram juntos para o que podemos chamar de uma viagem sem retorno.
.
Abriu a porta de um antigo casarão cercado de verdes florestas ribeirinhas com vista para o Redentor. Não havia o mar, mas supunha uma paz abençoada.
.
Ele lia. Ela escrevia. Ele ditava. Ela acatava. Fizeram-se pilhas e pilhas de manuscritos desconexos sobre os mais diversos assuntos. O casarão enchia-se daquele cheiro empoeirado de folhas envelhecidas.
.
Um homem e uma mulher que não formavam um casal. Juventude que se fazia morta em natureza que não é humana. Paisagem estática de imagens. Movimentos de cenas repetitivas.
.
Ele lia em voz alta com aquela calma irritante. Ela escrevia a lápis com aquela pressa entediante. Não lhe aprazia o ato criativo, mas a obediência irrestrita de sua presa. Obsessão disfarçada de generosidade. E disso fez arte.
.
Ela não se dava conta da submissão a que estava condenada voluntariamente. Permitiu-se a enjoativa inanimação. Era objeto de longos olhares fixos, por lentes vivas e mortas. Foi registrada em todas as perspectivas possíveis, até mesmo as imaginárias. Chegou ao limite de sua sanidade e, enfim, libertou-se delirantemente de seu senhorio.
.
Sonambulava de camisola pelos tacos de madeira daquela prisão. Como que andando em campo minado, desviava das armadilhas espalhadas ao chão. Dançava o seu cio na sala-de-estar e entregava-se a tocar pelas mãos do vento. Amanhecia com os cabelos esvoaçados e um sorriso de gozo inconsciente. Estava viva.
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Ele passou a cercar o vento, vigilante, todas a noites. Enchia balões e balões de ar compulsivamente, na tentativa de eliminar o prazer daquele corpo vivo - seu objeto de desejo voyeurista.
.
Mas o vento sempre retornava por alguma fresta, por mais que fechasse a sua casa. Sua fonte de poder opressor e possessivo não tinha onde se alimentar. Não conseguia admirar um objeto pulsante. Não lhe apetecia a vida... apenas o seu reflexo.
.
Por não poder com o vento, covardemente levou-a de volta ao mar. E no mesmo local onde a encontrou desfalecida, fez a fotografia final: natureza morta.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Alinhavando diferenças
É tantas que não cabe em uma só. E essas muitas vivem a discordar dentro dela. O observador mais atento percebe que, mesmo quando uma delas sobressai, as outras estão por trás, pedindo um tantinho de atenção.
Nascida de parto normal em 24 de maio de 1977, às 20h, em uma cidadezinha do interior, sua mãe levou 12 horas em trabalho de parto. Pudera! Deu à luz muitas meninas inquietas naquela exuberante noite de inverno:
A mais ensimesmada trancava-se no quarto e dançava, sozinha, em frente ao espelho, enquanto o mundo desabava do lado de fora.
A mais sensitiva sabia porque o mundo estava desabando e sofria com isso, guardando o segredo para si - sem impedir.
A espoleta, ao dar-se conta que havia um desabamento, partia, sem hesitar, e segurava os cacos, para evitar que alguém se machucasse. E voltava toda cortada.
.
Foi uma adolescente namoradeira, mas gostava de estar só. Tinha muitos colegas, mas poucos amigos. Todos a conheciam, mas ela quase não conhecia ninguém. Estudiosa; sempre adorou aprender, mas destava ler. Copiava mais que criava. Obedecia e não sonhava. Tinha uma inquietude tão grande, que, ou andava torta, ou parava. Perfeccionista, em algum momento escolheu parar. Não queria ser torta na vida.
.
Quando adulta aprendeu a gostar de ler. Parou de obedecer. Criou mais que imaginou. E voou - torta!
Percebeu que amigos valem mais que colegas; permitiu-se cativar e ser cativada. Namorou menos e amou mais. Conviveu com a própria solidão e amou mais ainda. Entendeu seus pais e perdoou seu irmão.
Aceitou o seu desassossego interior e, assim, exteriorizou-se.
.
Descobriu que as muitas mulheres dentro de si poderiam conviver em paz. Fez com elas um pacto de vida: todas eram igualmente necessárias, não podia viver sem nenhuma parte de si. E passou a irradiar aquela luz que, desde sempre, esteve a acompanhá-la.
.
É alegria, entusiasmo, boa vontade, generosidade... e humanidade exacerbada.
É também melancolia, preguiça, desânimo, solidão necessária... e humanidade excerbada.
Já nasceu torta, mas às vezes é reta.
Foi parida antiga e cresceu inovando.
É tantas. É uma. E às vezes nem é nada.
É o que foi, o que é e o que será.
Simplesmente ela, senhorita M.
06.09.2009
Retalhos em C
Cuidado com contos cantarolados.
Coração conta compassos!
Canções colorem cada caminhada.
Côncavas. Convexas. Complexas.
Cabe confeitar cacos?
Confundir cucas?
Cinza, caricatura.
Cobre, compostura.
Concentre-se. Ceda-se. Cálice!
Cacareja o coronelismo cristão...
Comunidade civilizada.
Cadê?
Cruz credo!
Confessionário congestionado.
Corpo condenado.
Carne coberta.
Clamor. Calor.
Cimento e cal.
_____________
...
Cólera cicatrizada
continua cortando
cada canto
conflituoso
culminando carmim.
...
Carícias cálidas
confortam companhia
carente.
...
Cabeça coroada
corpo calado
com castidade cinturada.
...
Cidade com carroça
Cigarra canta
Capricho, cumpadre!
Cochicho, comadre!
Cachaça conta.
...
Coveiro convalesce
Carrancudo!
Cavando, cantando, cansando
Colhendo choros
Cobrindo cúmulos
Construindo catacumbas.
06.09.2009
Coração conta compassos!
Canções colorem cada caminhada.
Côncavas. Convexas. Complexas.
Cabe confeitar cacos?
Confundir cucas?
Cinza, caricatura.
Cobre, compostura.
Concentre-se. Ceda-se. Cálice!
Cacareja o coronelismo cristão...
Comunidade civilizada.
Cadê?
Cruz credo!
Confessionário congestionado.
Corpo condenado.
Carne coberta.
Clamor. Calor.
Cimento e cal.
_____________
...
Cólera cicatrizada
continua cortando
cada canto
conflituoso
culminando carmim.
...
Carícias cálidas
confortam companhia
carente.
...
Cabeça coroada
corpo calado
com castidade cinturada.
...
Cidade com carroça
Cigarra canta
Capricho, cumpadre!
Cochicho, comadre!
Cachaça conta.
...
Coveiro convalesce
Carrancudo!
Cavando, cantando, cansando
Colhendo choros
Cobrindo cúmulos
Construindo catacumbas.
06.09.2009
Retalhos de retalhos
Queria que o medo me instigasse mais que paralizasse.
Queria que o medo não me causasse síncopes.
Queria que o meu medo não tivesse que dormir para sossegar.
Queria, enfim, ter medo.
E não medo do medo.
Queria que o medo não me causasse síncopes.
Queria que o meu medo não tivesse que dormir para sossegar.
Queria, enfim, ter medo.
E não medo do medo.
Retalhos fragmentados V
Cachoeiras causam em mim um impacto ainda mais arrepiante que o Mar.
Gosto daquela sensação das águas correndo entre as pedras, como se as acarinhassem por menos de um segundo. Águas que, àquelas pedras, não retornam mais.
Faz-me pensar sobre a efemeridade de tantas coisas deliciosas que vivemos e que, não é por não retornarem, que deixam de nos abraçar.
Lugar comum, pra mim, é todo lugar onde nos é dado o poder de chegar sem antes ter que passar por dentro de si.
30.08.2009
Gosto daquela sensação das águas correndo entre as pedras, como se as acarinhassem por menos de um segundo. Águas que, àquelas pedras, não retornam mais.
Faz-me pensar sobre a efemeridade de tantas coisas deliciosas que vivemos e que, não é por não retornarem, que deixam de nos abraçar.
Lugar comum, pra mim, é todo lugar onde nos é dado o poder de chegar sem antes ter que passar por dentro de si.
30.08.2009
Retalhos poéticos X
Colando cacos
Sinto falta de mim
Estou repleta demais
Cheia!
Minha presença transborda
Não consigo me estancar.
Os portões estão fechados
E ainda assim vazo
Pelas frestas!
Dos cacos mal juntados
Deste mosaico de mim.
Costuraram-me pelo avesso
Minhas linhas estão expostas
Tortas!
Sou larga e apertada, comprida e curta
Não caibo em mim.
Já fui inteira, certeira
Há bem pouco tempo atrás
Caule, folha e flor!
Até que por brincadeira
Parei no mal-me-quer.
Em qual parte da estrada
Teria deixado de enxergar
Cega!
O tal bem-me-quer
Que costumava me adornar?
Haverá como retornar
Por caminhos já trilhados
Passados!
Sem perder de vista
Os espetáculos do acaso?
Deixei escapar...
Será possível resgatar
A alma chicoteada
O espírito domado, adormecido
A-cor-dar!
Deste fabuloso sono sem fim?
Quero buscar...
Expulsei-me de minha morada
E agora busco um lar
Abrigo!
Onde consiga olhar em volta
E fazer parte do jardim.
Sou toda espinhos
Mas já soube ser flor!
E há de haver quem enxergue
Além dos pingos de sangue
Que faço correr nos dedos
Medos!
Porque ainda tenho perfume...
24.08.2009
_____________
Retalhos poéticos IX
________________________
Um poeminha só
Hoje eu queria fazer um poema feliz
Para aliviar o que sinto
Quando meus olhos, inquietos, sorriem
E os lábios, curiosos, se entreabrem
Como se o quisessem seguir
Hoje eu queria fazer um poema triste
Para disfarçar a dor em forma de saudade
Quando o meu peito vira contorcionista
Fazendo elásticos malabarismos
Tentando não me machucar
Hoje eu queria fazer um poema ausente
Para estar longe de mim
E mais perto de você
Levando o meu beijo, o meu cheiro, o meu chamego
Buscando lhe abraçar
Hoje eu queria fazer um poema meu
Para me doar a você
Em densos versos, intensos
Saudosos, saltitantes, a pulsar
E que em seus braços haveriam de pular!
Hoje eu queria fazer apenas um poema
Para soprar o vento até você
Levando palavras que desenho no ar
Em sussurros, a lhe dizer:
Saudade, saudade de não lhe ter!
20.08.2009
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Um poeminha só
Hoje eu queria fazer um poema feliz
Para aliviar o que sinto
Quando meus olhos, inquietos, sorriem
E os lábios, curiosos, se entreabrem
Como se o quisessem seguir
Hoje eu queria fazer um poema triste
Para disfarçar a dor em forma de saudade
Quando o meu peito vira contorcionista
Fazendo elásticos malabarismos
Tentando não me machucar
Hoje eu queria fazer um poema ausente
Para estar longe de mim
E mais perto de você
Levando o meu beijo, o meu cheiro, o meu chamego
Buscando lhe abraçar
Hoje eu queria fazer um poema meu
Para me doar a você
Em densos versos, intensos
Saudosos, saltitantes, a pulsar
E que em seus braços haveriam de pular!
Hoje eu queria fazer apenas um poema
Para soprar o vento até você
Levando palavras que desenho no ar
Em sussurros, a lhe dizer:
Saudade, saudade de não lhe ter!
20.08.2009
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Costurando retalhos VII
Um novo cantar...
“And I find it kind of funny, I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying are the best I’ve ever had
I find it hard to tell you, I find it hard to take
When people run in circles, it's a very, very
Mad world…”
Pensa, logo existe. Mas não é. Ser é coisa pra quem é de vida vivida – vívida! A sina de pensar é dada a quem está, seja de passagem, de viagem ou de pura montagem. Ah, essa vida pensada, ofício de gente que quer saber o um, se perguntar o um... palco ilusório de um “estar-no-mundo”, platéia de uma poltrona só. Estrela que se espanta à própria explosão.
Sua canção é triste demais para ser cantada, mas nem sequer sabe escutá-la. Põe-se a cantá-la em pensamento, chorando sua triste e sufocada letra, que segue capenga, sem Dó Maior. Os pensamentos ocupam de tal forma a sua mente, que as melodias passam despercebidas. E de tanto pensar, só pensa que pensa. Não se lembra de matutar que a tristeza da sua cantiga de ninar – chamando a morte em vida – poderia revestir-se de outro som, ter um novo tom.
Triste é pensar que sente o pensamento como se fosse sentimento. E chora as lágrimas de um caminhar elocubrado, com a sanguinolenta dor que julga ser fardo seu. Está condenado a ser sofredor, pensando-se pecador de erros inominados. Demoníaca Inquisição, que sobrevive no cerne de si! D’onde há de vir a julgar os vivos e os mortos?
Expectador de sua própria encenação, protagonista de um dramático monólogo que chega a dialogar com a sua dor. O palco da vida é grande demais para a sua dança desajeitada. Deixou seu canto de canto, em busca de um encanto que, por tanto desacreditar, espera que caia dos céus; salte das velhas e mofadas páginas de livros já lidos e relidos.
Sonha, deseja, busca, espera e se desespera... de tanto pensar! Mas insiste: pensa, logo existe. Que triste.
Chiste! Em sono profundo encontrou-se a sonhar fantasias de um luminoso sentir. Pedaços de vida, cacos de esperanças adormecidas, retalhos de desilusões descosturadas, restos do que jaz em morte morrida. Precisava escolher o que iria carregar – antes de acordar!
Oh, visão dos céus! – da vida, aliás, refletida na Terra, aqui embaixo mesmo, onde também se pode brilhar, e não apenas morrer de fome... do além, de qualquer deglutir a mais. Repousava em sua face aquele hipnótico sorriso que só se mostra em descuido. Um sorriso que não tem nome, que não se pode pensar. Mas é.
Seu sonhar era embalado por canções nem tão tristes, onde letras faziam-se dispensáveis diante da emudecente beleza d’Aquela melodia tão cheia de possibilidades: Vida! Uma nova forma de cantar e encantar... a Ossanha. Porque ninguém está quando quer. É.
25-08-2008
“And I find it kind of funny, I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying are the best I’ve ever had
I find it hard to tell you, I find it hard to take
When people run in circles, it's a very, very
Mad world…”
Pensa, logo existe. Mas não é. Ser é coisa pra quem é de vida vivida – vívida! A sina de pensar é dada a quem está, seja de passagem, de viagem ou de pura montagem. Ah, essa vida pensada, ofício de gente que quer saber o um, se perguntar o um... palco ilusório de um “estar-no-mundo”, platéia de uma poltrona só. Estrela que se espanta à própria explosão.
Sua canção é triste demais para ser cantada, mas nem sequer sabe escutá-la. Põe-se a cantá-la em pensamento, chorando sua triste e sufocada letra, que segue capenga, sem Dó Maior. Os pensamentos ocupam de tal forma a sua mente, que as melodias passam despercebidas. E de tanto pensar, só pensa que pensa. Não se lembra de matutar que a tristeza da sua cantiga de ninar – chamando a morte em vida – poderia revestir-se de outro som, ter um novo tom.
Triste é pensar que sente o pensamento como se fosse sentimento. E chora as lágrimas de um caminhar elocubrado, com a sanguinolenta dor que julga ser fardo seu. Está condenado a ser sofredor, pensando-se pecador de erros inominados. Demoníaca Inquisição, que sobrevive no cerne de si! D’onde há de vir a julgar os vivos e os mortos?
Expectador de sua própria encenação, protagonista de um dramático monólogo que chega a dialogar com a sua dor. O palco da vida é grande demais para a sua dança desajeitada. Deixou seu canto de canto, em busca de um encanto que, por tanto desacreditar, espera que caia dos céus; salte das velhas e mofadas páginas de livros já lidos e relidos.
Sonha, deseja, busca, espera e se desespera... de tanto pensar! Mas insiste: pensa, logo existe. Que triste.
Chiste! Em sono profundo encontrou-se a sonhar fantasias de um luminoso sentir. Pedaços de vida, cacos de esperanças adormecidas, retalhos de desilusões descosturadas, restos do que jaz em morte morrida. Precisava escolher o que iria carregar – antes de acordar!
Oh, visão dos céus! – da vida, aliás, refletida na Terra, aqui embaixo mesmo, onde também se pode brilhar, e não apenas morrer de fome... do além, de qualquer deglutir a mais. Repousava em sua face aquele hipnótico sorriso que só se mostra em descuido. Um sorriso que não tem nome, que não se pode pensar. Mas é.
Seu sonhar era embalado por canções nem tão tristes, onde letras faziam-se dispensáveis diante da emudecente beleza d’Aquela melodia tão cheia de possibilidades: Vida! Uma nova forma de cantar e encantar... a Ossanha. Porque ninguém está quando quer. É.
25-08-2008
Costurando retalhos VI
“As penas que eu mesmo sinto de mim”
Pior é que tinha consciência de cada passo mal calculado de sua estratégia fracassada. Se ao menos pudesse intuir o que jaz no inconsciente; o âmago de si. Restava-lhe, ainda, esta última chance: explorar o selvagem centro daquilo que vive dentro. Caminhar daqui pra cá. Viajar.
Mal dormia e já desejava sonhar. Insônia! Oh, acolhedora companheira de tantos cafés e cigarros; precisava, agora, deixá-lo partir naquele adormecer desperto que o faria, finalmente, acordar. Seus sonhos revelariam bem mais do que a sua insignificante existência terrena. Agora era ele; Aquele que existe entre fantasias de silêncio e floretes de honra.
Andava em círculos, dentro de si, às margens do vale de lágrimas em que chegou a nadar, sem se afogar. Quanto mais era marginal, mais seguro aparentava estar. Porque é fácil sentir-se bem quando tudo ao redor parece mal. E não importava quão assustadora era a sua face, simplesmente não encarava seus espelhos.
Sentia-se como sendo sugado pelo ralo de um imenso esgoto de alucinações. Uma enxurrada de lama, temperada com o sal de suas lágrimas, resgatava-no das margens de si. Girava, girava, girava – torcendo para que sua mente acertasse na hora de parar -, em direção ao centro. Sabia, agora, o que era ser espetáculo. O palco era só seu.
Sentou-se em meio a todos aqueles borrões; cessões contínuas de si. Pilhas e pilhas de palimpsestos aguardavam por uma nova escritura, um novo desenho, nova forma, um gigantesco vir-a-ser. Mas, certeza incerta que costumava conhecer, ao dar-se conta que era Ele o seu próprio desejo, quis apenas não ser! Escolheu não desejar. Desceu do palco, saiu do centro, sentou-se de canto, na única poltrona da platéia. E pôs-se a observar.
Era como se estivesse dentro de uma mostra de trailers de cinema. Viu pedaços da sua vida passando e não os podia alcançar. Novamente a sensação de incompletude, daquela existência que não era lógica; tinha um nexo disléxico. Quanta coisa havia ficado por acabar sem nem ao menos começar...
Percebeu que em sua vida houve comédia, não apenas tragédia – e que o drama ficou por sua conta! Não era dado a melodias, mas respirava Tchaikovsky, em sua Sinfonia Manfredo. Sentiu saudade de si. Queria ser. Estaria preso àquele longínquo observar-se? Estaria, já, enquadrado, para a posteridade? N’aquela tela, era natureza morta, estando ainda vivo?
Se a cada passo de vida deixava de existir, já estaria morto? Afinal, qual seria o último passo? Teria como saber, para que não o ousasse pisar?
Mas com a coragem que somente os covardes têm, recusou o ponto final. Após ter conhecido o melhor e o pior de si, apoiou-se em sua Sombra - fiel escudeira. Desistiu de desistir. Arriscou esperar. Desejou sonhar, só mais uma vez. Queria desvendar o tal mistério: O que seria um sonho, depois de realizado?
E deu-se O Grito, tal qual Munch desenhou...
22-08-2009
Costurando retalhos V
“Sei lá, a Vida tem sempre razão...”
Vinha de tão longe, que nem mais sabia de onde partiu. Sentia-se partido, como se o houvessem parido pela metade. Algo de si ainda estava por nascer. E por sua vida ter sido tão pequena – ínfima até – seguia na esperança de que sua outra metade nascesse grande, para que pudesse, enfim, ter algum brilho na vida.
Tinha os pés ásperos da inquietante permanência. Trazia na face rugas cravadas pela espera frustrante, longa busca pela tal completude que não lhe fora permitida sentir. A vida não desejou lhe oferecer benevolência alguma, enquanto ele pensava que sua Fé removeria as montanhas que o separavam do resto da humanidade.
Era só, e só, um ser só. Desconhecia os gostos mais doces, os toques mais suaves, as mais belas melodias, as vivas cores da alegria de "se ser". Sua alma habitava um triste e enfadonho lar. Tinha vontade de vomitar toda a sua existência para que pudesse enxergar os restos de si, a sopa insossa que conseguiu preparar com as mãos que não podem alcançar as estrelas. Queria sentir - por misericórdia que fosse - algum sinal a lhe guiar, algum resquício ou migalha de Amor destinado a Ele. Por que não seria digno que entrassem em Sua Morada? Seria salvo?
Calava-se por não ter coisa melhor a dizer que o silêncio berrante da sua imagem. Desaprendeu a sorrir já na infância, quando lhe trocaram os brinquedos por espelhos. Oh, Senhor, queria apenas não ter olhos para enxergar tanta feiúra! E nem mesmo sabia ser feio por fora; o que escapava de dentro era arrogantemente espantoso. A humildade de seus finos traços externos - quase que belos - fitava o chão, sem coragem de erguer a cabeça acima dos joelhos ralados de tanto pedir perdão por existir.
Não era cheio de graça, mas rogava a sua Maria. Também Ele era fruto do ventre. E queria viver antes da bendita hora da sua morte. Se bem que lhe passava pela cabeça a idéia de que morrer seria, enfim, a sua missão. Não vinha fazendo nada mais interessante que ir-se morrendo aos poucos na Terra e subindo “um cadinho” aos Céus.
Mas o sol era de rachar e não podia mais se dar ao luxo de pensar. Isso era coisa pra gente inteira, não para um mal acabado pedaço, fruto de parideira desconhecida; Ele. Tinha pressa e precisava ir devagar. Já era mais que tempo de esticar os braços e não clamar aos céus.
Sim, era hora de suas mãos alcançarem Aquela metade sua, que brilhava bem em cima de suas ignoradas idéias. Precisava andar de mãos dadas consigo mesmo, fazer as pazes com seus espelhos, curar Aqueles joelhos e não mais os sacrificar por qualquer esmola desalmada de perdão. Santificado era, também, o Seu nome, porque também era Deus.
E que fosse feita a Sua vontade, para sentir-se humano, ao menos uma vez.
21-08-2009
Tinha os pés ásperos da inquietante permanência. Trazia na face rugas cravadas pela espera frustrante, longa busca pela tal completude que não lhe fora permitida sentir. A vida não desejou lhe oferecer benevolência alguma, enquanto ele pensava que sua Fé removeria as montanhas que o separavam do resto da humanidade.
Era só, e só, um ser só. Desconhecia os gostos mais doces, os toques mais suaves, as mais belas melodias, as vivas cores da alegria de "se ser". Sua alma habitava um triste e enfadonho lar. Tinha vontade de vomitar toda a sua existência para que pudesse enxergar os restos de si, a sopa insossa que conseguiu preparar com as mãos que não podem alcançar as estrelas. Queria sentir - por misericórdia que fosse - algum sinal a lhe guiar, algum resquício ou migalha de Amor destinado a Ele. Por que não seria digno que entrassem em Sua Morada? Seria salvo?
Calava-se por não ter coisa melhor a dizer que o silêncio berrante da sua imagem. Desaprendeu a sorrir já na infância, quando lhe trocaram os brinquedos por espelhos. Oh, Senhor, queria apenas não ter olhos para enxergar tanta feiúra! E nem mesmo sabia ser feio por fora; o que escapava de dentro era arrogantemente espantoso. A humildade de seus finos traços externos - quase que belos - fitava o chão, sem coragem de erguer a cabeça acima dos joelhos ralados de tanto pedir perdão por existir.
Não era cheio de graça, mas rogava a sua Maria. Também Ele era fruto do ventre. E queria viver antes da bendita hora da sua morte. Se bem que lhe passava pela cabeça a idéia de que morrer seria, enfim, a sua missão. Não vinha fazendo nada mais interessante que ir-se morrendo aos poucos na Terra e subindo “um cadinho” aos Céus.
Mas o sol era de rachar e não podia mais se dar ao luxo de pensar. Isso era coisa pra gente inteira, não para um mal acabado pedaço, fruto de parideira desconhecida; Ele. Tinha pressa e precisava ir devagar. Já era mais que tempo de esticar os braços e não clamar aos céus.
Sim, era hora de suas mãos alcançarem Aquela metade sua, que brilhava bem em cima de suas ignoradas idéias. Precisava andar de mãos dadas consigo mesmo, fazer as pazes com seus espelhos, curar Aqueles joelhos e não mais os sacrificar por qualquer esmola desalmada de perdão. Santificado era, também, o Seu nome, porque também era Deus.
E que fosse feita a Sua vontade, para sentir-se humano, ao menos uma vez.
21-08-2009
Retalhos poéticos VIII
Apenas um Toque
Quero o seu toque
Espero que se toque
E simplesmente toque
A música que embora sua
Agora habita em mim.
Sem mais toc-toc!
Deixei portas e janelas abertas
Sensações despertas
Idéias espertas
Que é pra você entrar!
- e sei que vai ficar -
Ah, não espere que eu lhe prenda
Mas que lhe surpreenda
Compreenda
Sem me fazer prenda
Que é pra você usar!
Boneca; procure em prateleiras
Não me encontrou em fileiras
A minha roda nem tanto gira
Enquanto na vida anda a fila
Porque eu não sou brinquedo, não...
Que é pra você jogar!
Mas se em mim deseja apostar
Sabendo me enxergar
Cuidando ao me tocar
Querendo me desvendar
Tentar...
Provar..
Velar.
Ah, assim vai dar!
Sou toda de você
- e jamais de outro alguém -
Que é pra você se lambuzar!
20/08/09
Quero o seu toque
Espero que se toque
E simplesmente toque
A música que embora sua
Agora habita em mim.
Sem mais toc-toc!
Deixei portas e janelas abertas
Sensações despertas
Idéias espertas
Que é pra você entrar!
- e sei que vai ficar -
Ah, não espere que eu lhe prenda
Mas que lhe surpreenda
Compreenda
Sem me fazer prenda
Que é pra você usar!
Boneca; procure em prateleiras
Não me encontrou em fileiras
A minha roda nem tanto gira
Enquanto na vida anda a fila
Porque eu não sou brinquedo, não...
Que é pra você jogar!
Mas se em mim deseja apostar
Sabendo me enxergar
Cuidando ao me tocar
Querendo me desvendar
Tentar...
Provar..
Velar.
Ah, assim vai dar!
Sou toda de você
- e jamais de outro alguém -
Que é pra você se lambuzar!
20/08/09
Retalhos poéticos VII
Dança da Solidão
É silêncio. É pergunta.
Uma ausência total de sentidos...
Para tudo o que sente e deseja
Não dispõe de palavras para expressar.
Sua falta de posse sobre si mesma
- e sobre o mundo! -
Reduziram-na a si.
Como criança mimada, especula em vez de existir
Gasta pouco da vida, para ela não acabar
Pois sabe que, o que amadurece plenamente
Pode bem cedo apodrecer.
Teme que lhe escape – esse escape!
É intelectual, mas escreve com o corpo.
É angústia. É procura.
Silêncio extasiante de um simples estar-no-mundo.
18-08-2009
É silêncio. É pergunta.
Uma ausência total de sentidos...
Para tudo o que sente e deseja
Não dispõe de palavras para expressar.
Sua falta de posse sobre si mesma
- e sobre o mundo! -
Reduziram-na a si.
Como criança mimada, especula em vez de existir
Gasta pouco da vida, para ela não acabar
Pois sabe que, o que amadurece plenamente
Pode bem cedo apodrecer.
Teme que lhe escape – esse escape!
É intelectual, mas escreve com o corpo.
É angústia. É procura.
Silêncio extasiante de um simples estar-no-mundo.
18-08-2009
Retalhos poéticos VI
Vozes de Mãos Dadas
Tenho mãos vazias de tanto esperar
Mãos abertas, trêmulas, a transpirar
Que pedem, a todo tempo
Que as suas as venham buscar.
Sinto saudade
Dos ventos que lhe embalam em nuvens
E fazem-lhe algodão-doce
No meu parque-de-diversões!
Pássaros amantes
Apreendem o seu cantar
E seguem-me pelas ruas
A can..ta...ro....lar
Melodias do seu olhar!
Tenho mãos abertas
Que fazem preces sem rezar
E agradecem ao luar
Por não lhe poderem tocar.
Românticas mãos sonhadoras, afagadoras
Desejando platonicamente - e ardentemente
Os dedos seus sentindo os meus
N’uma sinfonia de silêncio.
Tenho mãos inquietas, inquietantes
Que indicam
Sinalizam
E deslizam
Como doces vozes ao ar.
Tenho mãos que buscam ter voz
E voz que fala com as mãos.
E, hoje - só por hoje! - eu queria
Nossas vozes de mãos dadas, a passear...
17-08-2009
Tenho mãos vazias de tanto esperar
Mãos abertas, trêmulas, a transpirar
Que pedem, a todo tempo
Que as suas as venham buscar.
Sinto saudade
Dos ventos que lhe embalam em nuvens
E fazem-lhe algodão-doce
No meu parque-de-diversões!
Pássaros amantes
Apreendem o seu cantar
E seguem-me pelas ruas
A can..ta...ro....lar
Melodias do seu olhar!
Tenho mãos abertas
Que fazem preces sem rezar
E agradecem ao luar
Por não lhe poderem tocar.
Românticas mãos sonhadoras, afagadoras
Desejando platonicamente - e ardentemente
Os dedos seus sentindo os meus
N’uma sinfonia de silêncio.
Tenho mãos inquietas, inquietantes
Que indicam
Sinalizam
E deslizam
Como doces vozes ao ar.
Tenho mãos que buscam ter voz
E voz que fala com as mãos.
E, hoje - só por hoje! - eu queria
Nossas vozes de mãos dadas, a passear...
17-08-2009
Retalhos poéticos V
Olhar do avesso
Não serei expectadora de um mundo inventado
Não me acostumarei a olhar pelos fundos
Imundos jardins de descasos
Varridos com escovas de ácido
Que é pra ninguém ver!
Não serei cúmplice da miséria humana
- não aquela que jamais poderei acalentar
Mas a que se vale do poder
Do não fazer; não mexer, para não feder.
Cultivarei a indignação, soltarei o grito
Tenho a ânsia inalcançável da revelação
Da civilização
Civilidade, afinal!
Meus sonhos vivem a me acordar
Clamando pelo observar que não descansa
Pela esperança que não se cansa
Pelo expurgo da vergonhosa dança
Social, formal, teatral!
Não, não serei partícipe de um crime
Omissivo, passivo... lascivo
Soltarei a minha voz
Mostrarei a minha face
Incitarei almas ao pecado Ideal
Além do bem e do mal...
Onde o terror
Ninho quente não faz
Porque eu – também! –
Sou filha das trevas
E o terror, tão somente
Pai da Moral.
17-08-2009
Não serei expectadora de um mundo inventado
Não me acostumarei a olhar pelos fundos
Imundos jardins de descasos
Varridos com escovas de ácido
Que é pra ninguém ver!
Não serei cúmplice da miséria humana
- não aquela que jamais poderei acalentar
Mas a que se vale do poder
Do não fazer; não mexer, para não feder.
Cultivarei a indignação, soltarei o grito
Tenho a ânsia inalcançável da revelação
Da civilização
Civilidade, afinal!
Meus sonhos vivem a me acordar
Clamando pelo observar que não descansa
Pela esperança que não se cansa
Pelo expurgo da vergonhosa dança
Social, formal, teatral!
Não, não serei partícipe de um crime
Omissivo, passivo... lascivo
Soltarei a minha voz
Mostrarei a minha face
Incitarei almas ao pecado Ideal
Além do bem e do mal...
Onde o terror
Ninho quente não faz
Porque eu – também! –
Sou filha das trevas
E o terror, tão somente
Pai da Moral.
17-08-2009
Costurando retalhos IV
A Beleza D’ex-Conhecida
Há anos era nascido, mas só agora aprendia a engatinhar. N’ausência de quem lhe indicasse um caminho, partiu - curioso, a desbravar. Arrancaram-lhe as grades do cercado d’Aquele onírico repouso de sensações. Ora cá, ora lá; estava a perambular, sem sonambular.
Tateava objetos ao chão e os levava à boca, saboreando o exterior do seu exterior, como quem ingressava tardiamente no universo de sentidos e sensações. Fez do Mundo a sua morada; construiu castelos de areia, com a sabedoria infantil de que as ondas do Seu Mar sempre os haveriam de levar, num eterno construir e desmoronar. Balanço divino do que em Cima está a guiar Aquilo que embaixo há!
Adormeceu em despertar. Escondeu-se do espetacular movimento dos astros, que já não dançavam como outrora. Fez os Céus descerem à Terra, em sua busca. Humanizou divindades; despediu-se dos amigos imaginários: Aqueles rastejantes seres – Eles! -, que melancolicamente enfeitavam sua caminhada. Vagou pela noite buscando Seu clarear. Queria, agora, ser – um Ser - solar. E acordou esperto, bem mais que desperto! Ah, estava tão perto e tão certo, com Aquela certeza que não é vulgar: chegaria Acolá.
Sem buscar respostas, sentiu nos joelhos a ardência incômoda dos que insistem no engatinhar, podendo – e já! - andar. Olhou para os Céus, que não mais estavam Lá. Os Hematófagos subiram ao mais alto do Mundo Seu, buscando alimento em seu nascente e crescente Viver. Corria sangue em seu olhar, mas lacrimejava flores. Aos poucos - e bem pouco - coloria sua triste face. Porque Rainhas não brilhavam, não! Cintilava ele – e só Ele! Aquele.
Beleza que se fez suplício: ah, não poderia aceitar! Desconhecia o "belo elo" venusiano, presente em Todo Lugar: Cá, Lá, Acolá! Não podia enxergar. Cegava-se diante da beleza do Mundo Tão Novo Seu, agora, já sem luar. Contemplava ao longe – distante de Si – o bailar dos humanos a ensaiar o teatro da Vida Real. E realizou: somos todos nós, seres em cascas de Noz.
Sozinho, perdido, onde era Aquele lugar? Será que, em algum ponto da Roda, haveria de andar? Condenar-se-ia, voluntariamente, à sina de rastejar – ops!, engatinhar?
Tenho vontade de sussurrar n’Aqueles ouvidos já surdos de tanto gritar: liberte-se e ignore-a! Experimente. Tente. Vá em frente! Insensatez delirante que habita o seu pensar e contamina o Seu sentir. Viva, que se livra!
Assim conseguirá, finalmente, imaturo ser nascente: viver estando morto, já morto-vivo que é. E ainda insiste em procriar...
16-08-2009
Há anos era nascido, mas só agora aprendia a engatinhar. N’ausência de quem lhe indicasse um caminho, partiu - curioso, a desbravar. Arrancaram-lhe as grades do cercado d’Aquele onírico repouso de sensações. Ora cá, ora lá; estava a perambular, sem sonambular.
Tateava objetos ao chão e os levava à boca, saboreando o exterior do seu exterior, como quem ingressava tardiamente no universo de sentidos e sensações. Fez do Mundo a sua morada; construiu castelos de areia, com a sabedoria infantil de que as ondas do Seu Mar sempre os haveriam de levar, num eterno construir e desmoronar. Balanço divino do que em Cima está a guiar Aquilo que embaixo há!
Adormeceu em despertar. Escondeu-se do espetacular movimento dos astros, que já não dançavam como outrora. Fez os Céus descerem à Terra, em sua busca. Humanizou divindades; despediu-se dos amigos imaginários: Aqueles rastejantes seres – Eles! -, que melancolicamente enfeitavam sua caminhada. Vagou pela noite buscando Seu clarear. Queria, agora, ser – um Ser - solar. E acordou esperto, bem mais que desperto! Ah, estava tão perto e tão certo, com Aquela certeza que não é vulgar: chegaria Acolá.
Sem buscar respostas, sentiu nos joelhos a ardência incômoda dos que insistem no engatinhar, podendo – e já! - andar. Olhou para os Céus, que não mais estavam Lá. Os Hematófagos subiram ao mais alto do Mundo Seu, buscando alimento em seu nascente e crescente Viver. Corria sangue em seu olhar, mas lacrimejava flores. Aos poucos - e bem pouco - coloria sua triste face. Porque Rainhas não brilhavam, não! Cintilava ele – e só Ele! Aquele.
Beleza que se fez suplício: ah, não poderia aceitar! Desconhecia o "belo elo" venusiano, presente em Todo Lugar: Cá, Lá, Acolá! Não podia enxergar. Cegava-se diante da beleza do Mundo Tão Novo Seu, agora, já sem luar. Contemplava ao longe – distante de Si – o bailar dos humanos a ensaiar o teatro da Vida Real. E realizou: somos todos nós, seres em cascas de Noz.
Sozinho, perdido, onde era Aquele lugar? Será que, em algum ponto da Roda, haveria de andar? Condenar-se-ia, voluntariamente, à sina de rastejar – ops!, engatinhar?
Tenho vontade de sussurrar n’Aqueles ouvidos já surdos de tanto gritar: liberte-se e ignore-a! Experimente. Tente. Vá em frente! Insensatez delirante que habita o seu pensar e contamina o Seu sentir. Viva, que se livra!
Assim conseguirá, finalmente, imaturo ser nascente: viver estando morto, já morto-vivo que é. E ainda insiste em procriar...
16-08-2009
Retalhos poéticos IV
Desenhos no ar
Sinto a sua falta
Em cada pintura no ar
Com letras coloridas
De tão longe a perfumar
Quero-te tanto
E, no entanto,
Insisto em afastar
A menor tentativa de amor
Que em nós possa brotar
Com minhas prosas confusas
Meus versos capengas
Minh'alegria assustada
E um sorriso infantil
Tento dar-te os sinais
Controversos
E tenho sentimentos
Inversos
E por mais que tenha cores
Flores e jardins
Pássaros a cantar
Voem, voem
Mil léguas a me buscar!
Continuo, tola, a escolher
Camuflar o amor
Tão ingênuo e já febril
E fazer dos dias meus
De um Sentir que não sabia mais
Puros e inconfessos
Versos.
15-08-2009
Sinto a sua falta
Em cada pintura no ar
Com letras coloridas
De tão longe a perfumar
Quero-te tanto
E, no entanto,
Insisto em afastar
A menor tentativa de amor
Que em nós possa brotar
Com minhas prosas confusas
Meus versos capengas
Minh'alegria assustada
E um sorriso infantil
Tento dar-te os sinais
Controversos
E tenho sentimentos
Inversos
E por mais que tenha cores
Flores e jardins
Pássaros a cantar
Voem, voem
Mil léguas a me buscar!
Continuo, tola, a escolher
Camuflar o amor
Tão ingênuo e já febril
E fazer dos dias meus
De um Sentir que não sabia mais
Puros e inconfessos
Versos.
15-08-2009
Corte sem Costura
Infarto de Saudade
Quisera neste meu sangrar
Selvagem La Loba que sou
Enxergar através e além
Do que a pele – simples meia-fina
Pode ocultar
Mar vermelho em meus olhos
Enxurrada de uma só cor
Deixa um gosto saudoso n’alma
Daquela pintura torta
Bordas manchadas
Divinos borrões!
Ei, você aí, posso brincar?
Que cor tem o céu, afinal?
Violeta!
Que peguei no jardim pra você
Enfeite com ela os cabelos
E moça mais bela jamais haverá!
Saudade do lápis-de-cor
Da massa-de-modelar
Para que possa dar forma
Ao mundo que desejar
E quando tiver que partir
Para em um só minuto voltar
Feliz, direi, a sorrir
O que é a mais pura verdade:
Volte logo, cedinho
Quando também o sol chegar
Ou então, de tanta saudade
Assim, ó! ... irei infartar!
15-08-2009
Quisera neste meu sangrar
Selvagem La Loba que sou
Enxergar através e além
Do que a pele – simples meia-fina
Pode ocultar
Mar vermelho em meus olhos
Enxurrada de uma só cor
Deixa um gosto saudoso n’alma
Daquela pintura torta
Bordas manchadas
Divinos borrões!
Ei, você aí, posso brincar?
Que cor tem o céu, afinal?
Violeta!
Que peguei no jardim pra você
Enfeite com ela os cabelos
E moça mais bela jamais haverá!
Saudade do lápis-de-cor
Da massa-de-modelar
Para que possa dar forma
Ao mundo que desejar
E quando tiver que partir
Para em um só minuto voltar
Feliz, direi, a sorrir
O que é a mais pura verdade:
Volte logo, cedinho
Quando também o sol chegar
Ou então, de tanta saudade
Assim, ó! ... irei infartar!
15-08-2009
Retalhos fragmentados IV
Sobre a curiosidade humana
Casou-se com a máscara que encobria o conteúdo. Fez pacto com a aparência que, "a-parente-mente", lhe agradou. Na alegria e na tristeza, Voilà! Personificou o seu estar acompanhado e saiu às ruas, de mãos dadas. Aprazia-lhe o sentimento da não-solidão. Agradava-lhe o palco e a platéia a aplaudir – a personagem ou a persona, tanto faz.
Fez juras ao amor eterno, de jamais lhe interrogar. Pensou que, o combinado, caro, não sairia. De sua casa desconhecia os cômodos, que ao passar dos anos instigou-lhe incômodos. Quis abrir a porta – justo a que importa! - cuja chave não lhe permitiu tocar.
Deu-lhe, carinhosamente, a ingestão do longo sono. Os corredores pareciam não ter fim; labirinto do qual buscava escapar. Comeu do fruto proibido, quebrou as juras e a porta então se abriu. Era ela, enfim: a máscara caiu! Fez-se O Grito na alvorada; intocável e distante estava a sua assustada – e assustadora – face.
Chorou lágrimas de sangue. Era o grito e só o grito. Desmascarada, parecia tela; mas era ela, ela era.
Sapos caíram dos céus. Oh, angústia; alma deslavada!
14-08-2009
Casou-se com a máscara que encobria o conteúdo. Fez pacto com a aparência que, "a-parente-mente", lhe agradou. Na alegria e na tristeza, Voilà! Personificou o seu estar acompanhado e saiu às ruas, de mãos dadas. Aprazia-lhe o sentimento da não-solidão. Agradava-lhe o palco e a platéia a aplaudir – a personagem ou a persona, tanto faz.
Fez juras ao amor eterno, de jamais lhe interrogar. Pensou que, o combinado, caro, não sairia. De sua casa desconhecia os cômodos, que ao passar dos anos instigou-lhe incômodos. Quis abrir a porta – justo a que importa! - cuja chave não lhe permitiu tocar.
Deu-lhe, carinhosamente, a ingestão do longo sono. Os corredores pareciam não ter fim; labirinto do qual buscava escapar. Comeu do fruto proibido, quebrou as juras e a porta então se abriu. Era ela, enfim: a máscara caiu! Fez-se O Grito na alvorada; intocável e distante estava a sua assustada – e assustadora – face.
Chorou lágrimas de sangue. Era o grito e só o grito. Desmascarada, parecia tela; mas era ela, ela era.
Sapos caíram dos céus. Oh, angústia; alma deslavada!
14-08-2009
Retalhos poéticos III
Centro de Mim
De tudo quero muito
Muito pouco quero tudo
O tempo esquenta
Pega fogo
E sinto frio ainda assim
Há calor vindo de ti
Sensação infernal
Que de tão quente
Esfria a falta
Onipresente
Da tua presença
No centro da tela
Cinza
A visão pela janela
Por pintar
Talvez
Cores derramadas ao chão
Lacrimejadas por meu pesar
A desejar
Infinitamente
Que ao menos hoje
Tu saias da cena
Do cenário
Do centro
De mim
E que te cubras
Com o mesmo cimento
Que insististe em me moldar.
14-08-2009
De tudo quero muito
Muito pouco quero tudo
O tempo esquenta
Pega fogo
E sinto frio ainda assim
Há calor vindo de ti
Sensação infernal
Que de tão quente
Esfria a falta
Onipresente
Da tua presença
No centro da tela
Cinza
A visão pela janela
Por pintar
Talvez
Cores derramadas ao chão
Lacrimejadas por meu pesar
A desejar
Infinitamente
Que ao menos hoje
Tu saias da cena
Do cenário
Do centro
De mim
E que te cubras
Com o mesmo cimento
Que insististe em me moldar.
14-08-2009
Costurando retalhos III
Céu de Rainhas
Caminhante sabe que o caminho se faz ao caminhar. Mas de tantos caminhos já traçados, perdeu-se n’Aquelas (des)trançantes encruzilhadas, que não o levaram de Cá para Lá. Foi parar: sabe-se-Lá! Que mundo Acolá; oxalá Céu de Rainhas!
Hipnotizado, engraçou-se – e caiu em graças! - às Divas Noturnas. Ao desencontro total de si mesmo - e por faltar-lhe senso e direção - restou-lhe Aquela empoeirada humildade, persistente companheira de jornada e conselheira, arrogantemente ignorada, apenas até então.
Ajoelhou-se aos Céus, em clamor, pedindo às Divas: Céu de Rainhas; dá-me paz! E tão certo como a Terra é redonda, há que existir outros céus, onde dispostas e expostas Estrelas façam mais do que insinuar: cantem e encantem, dancem ao Luar, clareando o Obscuro interior onde habita um Ser de luz.
Sem mais Rainhas – e sendo tão menos Rei – finalmente apaixonou-se por virgens horizontes, sedento por desbravar a Lua-Nova-Vida que, aos solavancos, escolhera levar.
A idéia de aproximar-se para, então, afastar-se, parecia morrer antes mesmo de nascer. Ao final – e afinal -, por que se afastaria? Era de se pensar, mas preferiu, por ora, sentir. Gozou seu coração a fervilhar; impossível disfarçar o tremor nas mãos e pernas a bambear! Havia chegado ao desfecho d’Aquele passeio pela Roda das Mouras; seu mundo girou e retornou ao ponto de partida. Entendeu que a Fortuna está a rodar, que altos e baixos são o Real caminhar.
E já que a Terra é redondamente circular, tudo gira ao Seu redor: inclusive ele, Aquele. O caminho não se dá ao contrário, jamais. Somos meros expectadores das voltas dos Astros, e não astros de nossas próprias expectativas.
Sentiu, enxergou, cheirou, tocou, provou. Preencheu-se de sensações. Estava inteiro outra vez, um Ser apaixonante e apaixonado, amante e amado... Senhor de sua própria história, girando com a Roda, a bailar...
Oh, ingenuidade dos sofredores, que afasta para aproximar e aproxima para afastar! Oh, medo dos amantes - maliciosamente pueril – de não realizar o óbvio: Quem chega e sai ou sai para chegar, certeza incerta [como a Terra não é plana, não!] é que não gosta – e já o sabe!- do que vai encontrar por Lá.
14-08-2009
Caminhante sabe que o caminho se faz ao caminhar. Mas de tantos caminhos já traçados, perdeu-se n’Aquelas (des)trançantes encruzilhadas, que não o levaram de Cá para Lá. Foi parar: sabe-se-Lá! Que mundo Acolá; oxalá Céu de Rainhas!
Hipnotizado, engraçou-se – e caiu em graças! - às Divas Noturnas. Ao desencontro total de si mesmo - e por faltar-lhe senso e direção - restou-lhe Aquela empoeirada humildade, persistente companheira de jornada e conselheira, arrogantemente ignorada, apenas até então.
Ajoelhou-se aos Céus, em clamor, pedindo às Divas: Céu de Rainhas; dá-me paz! E tão certo como a Terra é redonda, há que existir outros céus, onde dispostas e expostas Estrelas façam mais do que insinuar: cantem e encantem, dancem ao Luar, clareando o Obscuro interior onde habita um Ser de luz.
Sem mais Rainhas – e sendo tão menos Rei – finalmente apaixonou-se por virgens horizontes, sedento por desbravar a Lua-Nova-Vida que, aos solavancos, escolhera levar.
A idéia de aproximar-se para, então, afastar-se, parecia morrer antes mesmo de nascer. Ao final – e afinal -, por que se afastaria? Era de se pensar, mas preferiu, por ora, sentir. Gozou seu coração a fervilhar; impossível disfarçar o tremor nas mãos e pernas a bambear! Havia chegado ao desfecho d’Aquele passeio pela Roda das Mouras; seu mundo girou e retornou ao ponto de partida. Entendeu que a Fortuna está a rodar, que altos e baixos são o Real caminhar.
E já que a Terra é redondamente circular, tudo gira ao Seu redor: inclusive ele, Aquele. O caminho não se dá ao contrário, jamais. Somos meros expectadores das voltas dos Astros, e não astros de nossas próprias expectativas.
Sentiu, enxergou, cheirou, tocou, provou. Preencheu-se de sensações. Estava inteiro outra vez, um Ser apaixonante e apaixonado, amante e amado... Senhor de sua própria história, girando com a Roda, a bailar...
Oh, ingenuidade dos sofredores, que afasta para aproximar e aproxima para afastar! Oh, medo dos amantes - maliciosamente pueril – de não realizar o óbvio: Quem chega e sai ou sai para chegar, certeza incerta [como a Terra não é plana, não!] é que não gosta – e já o sabe!- do que vai encontrar por Lá.
14-08-2009
Retalhos poéticos I
Alma Rasgada
Oh, Amor! Quisera compreender os tortuosos caminhos que te trazem a mim!
Calmaria desassossegada, turbilhão de êxtases, remexer de entranhas, ressacas morais.
Diante de ti sou megera e domada: faca em punho para ferir-te e curar-te ao final.
Mostra-me o lembrar que se esquece de esperar por ti.
Faz-me crer que, na longa espera, viverei - apesar da tua ausência corroer-me as pontas dos dedos.
Fixa meus olhos adiante, coloca-me antolhos, desvia-me do teu caminhar na esbórnia.
Dá-me forças para resistir quando chegares – pois chegarás; eu sei.
Desejo-te com tamanha insensatez, pungente insanidade instaurada sem meu consentir.
Minto! Aceito. Desejo. Espero. E consinto.
Vem, amor!,e não demores demais. Encontra-me inteira.
Temo que não chegues a tempo de colar os cacos desta alma que a tua falta rasga.
E que de tão ferida, sangra, desfalece e se cansa de querer.
12-08-2009
Oh, Amor! Quisera compreender os tortuosos caminhos que te trazem a mim!
Calmaria desassossegada, turbilhão de êxtases, remexer de entranhas, ressacas morais.
Diante de ti sou megera e domada: faca em punho para ferir-te e curar-te ao final.
Mostra-me o lembrar que se esquece de esperar por ti.
Faz-me crer que, na longa espera, viverei - apesar da tua ausência corroer-me as pontas dos dedos.
Fixa meus olhos adiante, coloca-me antolhos, desvia-me do teu caminhar na esbórnia.
Dá-me forças para resistir quando chegares – pois chegarás; eu sei.
Desejo-te com tamanha insensatez, pungente insanidade instaurada sem meu consentir.
Minto! Aceito. Desejo. Espero. E consinto.
Vem, amor!,e não demores demais. Encontra-me inteira.
Temo que não chegues a tempo de colar os cacos desta alma que a tua falta rasga.
E que de tão ferida, sangra, desfalece e se cansa de querer.
12-08-2009
Costurando retalhos II
Uma tragédia egóica.
Partiu para outras Terras, sem saber, sequer, se o solo daria a colher o que plantar. Foi-se daquele tenebroso lugar, de onde jamais quis sair – e para onde insiste em voltar. Mas, por que partiu? Expulsaram-no de Lá?
Era noite de lua Nova e a mansa escuridão celeste clareou, por intermináveis segundos, a cegueira do seu olhar. Percebeu que somente nas trevas conseguia andar sem bengalas. Aprendeu - mas apreendeu? - a desviar de pedras, crateras, penhascos e arbustos. Desdenhou o fio por desconhecer a meada e seguiu adiante, sob a prece d’A Lua que se esconde, a iluminar refugiados d’Aquel’Outra Lua, que faz espetáculo. Não lhe agrada o espetacular. Regozija-se na lama.
Em seu caminhar fez-se clarão. Sua busca pelo Bicho papava não apenas sua carne – sanguessugava, também. Enfraqueceu-se rapidamente e precisava chegar ao destino, não aceitava fraquejar! Como honraria seu nome - macho que é - sem poder levantar? Sempre de pé, a andar, ensinado a jamais recuar. Mas cego, ainda - condição que, a essa altura, se esqueceu de lembrar.
Passou por jardins, flores, macieiras, princesas e cavalos alados. Guardou na memória, somente – e tão somente! - a imagem entorpecente de seres rastejantes enfermos, gemendo e clamando ao Luar. Não pegou as migalhas de pão espalhadas ao chão. Deixou para trás o sapato de cristal. Não escalou as torres de tantos e tantos castelos, já que tranças de Rapunzel não lhe servem de impulso. Sonha com um – e só um! – Chanel.
Chegando ao destino, sentou-se na pedra que pesava em seus ombros. Mirou seu convalescente olhar para os Céus. Qual daquelas seria a Torre a escalar? Onde estaria Aquela que a fez caminhar? (...) Foi então que nasceu o dia e o Sol pôs-se a brilhar, cessando o clarear que a benévola Noite o permitiu presenciar. Caiu em si, tinha que retornar. Os lençóis não foram lançados, não havia onde se agarrar.
Retornou pelo Caminho do Vale, para que em lágrimas pudesse nadar. Cessada a nitidez da escuridão, não mais queria enxergar - senão o seu próprio pesar. Agarrou-se, novamente, a sua enfermidade, sem notar o quanto sua solidão era egoísta e egóica.
E pôs-se a caminhar, caminhar. Cego. Blindado. Em círculos.
12-08-2009
Partiu para outras Terras, sem saber, sequer, se o solo daria a colher o que plantar. Foi-se daquele tenebroso lugar, de onde jamais quis sair – e para onde insiste em voltar. Mas, por que partiu? Expulsaram-no de Lá?
Era noite de lua Nova e a mansa escuridão celeste clareou, por intermináveis segundos, a cegueira do seu olhar. Percebeu que somente nas trevas conseguia andar sem bengalas. Aprendeu - mas apreendeu? - a desviar de pedras, crateras, penhascos e arbustos. Desdenhou o fio por desconhecer a meada e seguiu adiante, sob a prece d’A Lua que se esconde, a iluminar refugiados d’Aquel’Outra Lua, que faz espetáculo. Não lhe agrada o espetacular. Regozija-se na lama.
Em seu caminhar fez-se clarão. Sua busca pelo Bicho papava não apenas sua carne – sanguessugava, também. Enfraqueceu-se rapidamente e precisava chegar ao destino, não aceitava fraquejar! Como honraria seu nome - macho que é - sem poder levantar? Sempre de pé, a andar, ensinado a jamais recuar. Mas cego, ainda - condição que, a essa altura, se esqueceu de lembrar.
Passou por jardins, flores, macieiras, princesas e cavalos alados. Guardou na memória, somente – e tão somente! - a imagem entorpecente de seres rastejantes enfermos, gemendo e clamando ao Luar. Não pegou as migalhas de pão espalhadas ao chão. Deixou para trás o sapato de cristal. Não escalou as torres de tantos e tantos castelos, já que tranças de Rapunzel não lhe servem de impulso. Sonha com um – e só um! – Chanel.
Chegando ao destino, sentou-se na pedra que pesava em seus ombros. Mirou seu convalescente olhar para os Céus. Qual daquelas seria a Torre a escalar? Onde estaria Aquela que a fez caminhar? (...) Foi então que nasceu o dia e o Sol pôs-se a brilhar, cessando o clarear que a benévola Noite o permitiu presenciar. Caiu em si, tinha que retornar. Os lençóis não foram lançados, não havia onde se agarrar.
Retornou pelo Caminho do Vale, para que em lágrimas pudesse nadar. Cessada a nitidez da escuridão, não mais queria enxergar - senão o seu próprio pesar. Agarrou-se, novamente, a sua enfermidade, sem notar o quanto sua solidão era egoísta e egóica.
E pôs-se a caminhar, caminhar. Cego. Blindado. Em círculos.
12-08-2009
Retalhos fragmentados III
Não há normalidade no usual. O trivial não carrega, transporta. E transportar vai além de apenas modificar a localização das coisas; transportar desloca a alma.
O extravagante tem peso, vaga mais do que sua massa comporta transportar. O extravagante carrega-se de si. Aparece. Grita. Clama por atenção. Não há transporte que consiga deslocar uma alma extravagante.
A trivialidade, o comum, o usual - que nada possuem de normal - levemente seguem o vento, passam despercebidos. Deixam suas marcas. E ficam.
12-08-2009
O extravagante tem peso, vaga mais do que sua massa comporta transportar. O extravagante carrega-se de si. Aparece. Grita. Clama por atenção. Não há transporte que consiga deslocar uma alma extravagante.
A trivialidade, o comum, o usual - que nada possuem de normal - levemente seguem o vento, passam despercebidos. Deixam suas marcas. E ficam.
12-08-2009
Costurando retalhos I
Sinto-me, agora, como a alma trêmula d’Aquele príncipe cego que, de tanto enxergar, cegou-se num vale de lágrimas. A cegueira é o delírio da visão de um impossível, que se sabe possível e pulsante, a desejar libertar-se dos grilhões formigantes de fuga. Quiçá, oh, príncipe, não seja O Castelo o seu lugar! Arrombe os portões e parta para O Mundo – o lado de cá. Pedras anestesiam como bolhas; mas estas, ao menos, permitem observar o correr dos dias perdidos em isolamento consentido: têm janelas de vidro. Suba no mais alto d’Aquela Torre e solte o recalcado gritar: Ó Zeus, liberte-me ou leve-me consigo! É chegado o tempo de arriscar o pulo ou permanecer sonâmbulo, a vagar pelos corredores d’O Castelo que já não o abriga mais – a carne, talvez; mas a alma jamais. Lembre-se de esquecer as fantasias de sonhos despertos, para que possa, por fim, descansar os ombros caídos de tanto pesar.
O Mundo - lado de cá - permite que princesas existam além das linhas imaginárias do perturbador pensar. N’Aquele Castelo elas estão adormecidas, ainda que belas. Calorosos príncipes anestesiados e belas princesas adormecidas – eis o que muros de pedra constroem!
Sê sagaz. Minerva já desenrolou o novelo. Siga-o e mate a Fera!
12-08-2009
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