quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Costurando retalhos V



“Sei lá, a Vida tem sempre razão...”
 Vinha de tão longe, que nem mais sabia de onde partiu. Sentia-se partido, como se o houvessem parido pela metade. Algo de si ainda estava por nascer. E por sua vida ter sido tão pequena – ínfima até – seguia na esperança de que sua outra metade nascesse grande, para que pudesse, enfim, ter algum brilho na vida.


Tinha os pés ásperos da inquietante permanência. Trazia na face rugas cravadas pela espera frustrante, longa busca pela tal completude que não lhe fora permitida sentir. A vida não desejou lhe oferecer benevolência alguma, enquanto ele pensava que sua Fé removeria as montanhas que o separavam do resto da humanidade.


Era só, e só, um ser só. Desconhecia os gostos mais doces, os toques mais suaves, as mais belas melodias, as vivas cores da alegria de "se ser". Sua alma habitava um triste e enfadonho lar. Tinha vontade de vomitar toda a sua existência para que pudesse enxergar os restos de si, a sopa insossa que conseguiu preparar com as mãos que não podem alcançar as estrelas. Queria sentir - por misericórdia que fosse - algum sinal a lhe guiar, algum resquício ou migalha de Amor destinado a Ele. Por que não seria digno que entrassem em Sua Morada? Seria salvo?


Calava-se por não ter coisa melhor a dizer que o silêncio berrante da sua imagem. Desaprendeu a sorrir já na infância, quando lhe trocaram os brinquedos por espelhos. Oh, Senhor, queria apenas não ter olhos para enxergar tanta feiúra! E nem mesmo sabia ser feio por fora; o que escapava de dentro era arrogantemente espantoso. A humildade de seus finos traços externos - quase que belos - fitava o chão, sem coragem de erguer a cabeça acima dos joelhos ralados de tanto pedir perdão por existir.


Não era cheio de graça, mas rogava a sua Maria. Também Ele era fruto do ventre. E queria viver antes da bendita hora da sua morte. Se bem que lhe passava pela cabeça a idéia de que morrer seria, enfim, a sua missão. Não vinha fazendo nada mais interessante que ir-se morrendo aos poucos na Terra e subindo “um cadinho” aos Céus.


Mas o sol era de rachar e não podia mais se dar ao luxo de pensar. Isso era coisa pra gente inteira, não para um mal acabado pedaço, fruto de parideira desconhecida; Ele. Tinha pressa e precisava ir devagar. Já era mais que tempo de esticar os braços e não clamar aos céus.


Sim, era hora de suas mãos alcançarem Aquela metade sua, que brilhava bem em cima de suas ignoradas idéias. Precisava andar de mãos dadas consigo mesmo, fazer as pazes com seus espelhos, curar Aqueles joelhos e não mais os sacrificar por qualquer esmola desalmada de perdão. Santificado era, também, o Seu nome, porque também era Deus.


E que fosse feita a Sua vontade, para sentir-se humano, ao menos uma vez.


21-08-2009

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