Encontrou-a já desfalecida, ao lado do túmulo de seu pai. Ao despertar disse-lhe: ao menos há vista para o mar; prefiro. Fez-lha, então, uma proposta silenciosa e partiram juntos para o que podemos chamar de uma viagem sem retorno.
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Abriu a porta de um antigo casarão cercado de verdes florestas ribeirinhas com vista para o Redentor. Não havia o mar, mas supunha uma paz abençoada.
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Ele lia. Ela escrevia. Ele ditava. Ela acatava. Fizeram-se pilhas e pilhas de manuscritos desconexos sobre os mais diversos assuntos. O casarão enchia-se daquele cheiro empoeirado de folhas envelhecidas.
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Um homem e uma mulher que não formavam um casal. Juventude que se fazia morta em natureza que não é humana. Paisagem estática de imagens. Movimentos de cenas repetitivas.
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Ele lia em voz alta com aquela calma irritante. Ela escrevia a lápis com aquela pressa entediante. Não lhe aprazia o ato criativo, mas a obediência irrestrita de sua presa. Obsessão disfarçada de generosidade. E disso fez arte.
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Ela não se dava conta da submissão a que estava condenada voluntariamente. Permitiu-se a enjoativa inanimação. Era objeto de longos olhares fixos, por lentes vivas e mortas. Foi registrada em todas as perspectivas possíveis, até mesmo as imaginárias. Chegou ao limite de sua sanidade e, enfim, libertou-se delirantemente de seu senhorio.
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Sonambulava de camisola pelos tacos de madeira daquela prisão. Como que andando em campo minado, desviava das armadilhas espalhadas ao chão. Dançava o seu cio na sala-de-estar e entregava-se a tocar pelas mãos do vento. Amanhecia com os cabelos esvoaçados e um sorriso de gozo inconsciente. Estava viva.
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Ele passou a cercar o vento, vigilante, todas a noites. Enchia balões e balões de ar compulsivamente, na tentativa de eliminar o prazer daquele corpo vivo - seu objeto de desejo voyeurista.
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Mas o vento sempre retornava por alguma fresta, por mais que fechasse a sua casa. Sua fonte de poder opressor e possessivo não tinha onde se alimentar. Não conseguia admirar um objeto pulsante. Não lhe apetecia a vida... apenas o seu reflexo.
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Por não poder com o vento, covardemente levou-a de volta ao mar. E no mesmo local onde a encontrou desfalecida, fez a fotografia final: natureza morta.

Bem denso.. acho que foi o mais pesado seu que li.
ResponderExcluirbjs
amiga, texto barbaro!
ResponderExcluirainda to digerindo as palavras...incrivel!
besos! *-*
Olá Monique!!
ResponderExcluirEstou adorando seu blog.
Gostei particularmente desta última escrita..comentarei as outras também, mas essa deixou-me mexido pela sensibilidade e formato da escrita.
Direto e rebuscado sem apelar para a pedância.
Final surpreendente...parabéns.