quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Costurando retalhos IV

A Beleza D’ex-Conhecida


Há anos era nascido, mas só agora aprendia a engatinhar. N’ausência de quem lhe indicasse um caminho, partiu - curioso, a desbravar. Arrancaram-lhe as grades do cercado d’Aquele onírico repouso de sensações. Ora cá, ora lá; estava a perambular, sem sonambular.

Tateava objetos ao chão e os levava à boca, saboreando o exterior do seu exterior, como quem ingressava tardiamente no universo de sentidos e sensações. Fez do Mundo a sua morada; construiu castelos de areia, com a sabedoria infantil de que as ondas do Seu Mar sempre os haveriam de levar, num eterno construir e desmoronar. Balanço divino do que em Cima está a guiar Aquilo que embaixo há!

Adormeceu em despertar. Escondeu-se do espetacular movimento dos astros, que já não dançavam como outrora. Fez os Céus descerem à Terra, em sua busca. Humanizou divindades; despediu-se dos amigos imaginários: Aqueles rastejantes seres – Eles! -, que melancolicamente enfeitavam sua caminhada. Vagou pela noite buscando Seu clarear. Queria, agora, ser – um Ser - solar. E acordou esperto, bem mais que desperto! Ah, estava tão perto e tão certo, com Aquela certeza que não é vulgar: chegaria Acolá.

Sem buscar respostas, sentiu nos joelhos a ardência incômoda dos que insistem no engatinhar, podendo – e já! - andar. Olhou para os Céus, que não mais estavam Lá. Os Hematófagos subiram ao mais alto do Mundo Seu, buscando alimento em seu nascente e crescente Viver. Corria sangue em seu olhar, mas lacrimejava flores. Aos poucos - e bem pouco - coloria sua triste face. Porque Rainhas não brilhavam, não! Cintilava ele – e só Ele! Aquele.

Beleza que se fez suplício: ah, não poderia aceitar! Desconhecia o "belo elo" venusiano, presente em Todo Lugar: Cá, Lá, Acolá! Não podia enxergar. Cegava-se diante da beleza do Mundo Tão Novo Seu, agora, já sem luar. Contemplava ao longe – distante de Si – o bailar dos humanos a ensaiar o teatro da Vida Real. E realizou: somos todos nós, seres em cascas de Noz.


Sozinho, perdido, onde era Aquele lugar? Será que, em algum ponto da Roda, haveria de andar? Condenar-se-ia, voluntariamente, à sina de rastejar – ops!, engatinhar?

Tenho vontade de sussurrar n’Aqueles ouvidos já surdos de tanto gritar: liberte-se e ignore-a! Experimente. Tente. Vá em frente! Insensatez delirante que habita o seu pensar e contamina o Seu sentir. Viva, que se livra!

Assim conseguirá, finalmente, imaturo ser nascente: viver estando morto, já morto-vivo que é. E ainda insiste em procriar...
 16-08-2009

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