sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Somos nós!




O não convencional é anti-social
O não conveniente é excêntrico
O não tradicional é bizarro
O não condizente é insano.
Dizem por aí?
... e aí vamos nós!

A quem ouve mais, menos som
A quem fala mais, menos voz
A quem enxerga mais, menos visão
A quem sente mais, solidão.
Dizem por lá?
... e lá vamos nós!

Os anti-sociais estão surdos
Os excêntricos estão mudos
Os bizarros estão cegos
Os insanos estão (se)gregados.
Dizem por aqui?
... e aqui vamos nós!

Convencionamos a exclusão que ensurdece
A conveniência que emudece
A tradição que cega
E a condição que enlouquece: ousadia lúcida de quem teima em berrar.
Disseram, já?
... e fomos nós!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Retalhos elocubrados



    
    Encontrou-a já desfalecida, ao lado do túmulo de seu pai. Ao despertar disse-lhe: ao menos há vista para o mar; prefiro. Fez-lha, então, uma proposta silenciosa e partiram juntos para o que podemos chamar de uma viagem sem retorno.
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    Abriu a porta de um antigo casarão cercado de verdes florestas ribeirinhas com vista para o Redentor. Não havia o mar, mas supunha uma paz abençoada.
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    Ele lia. Ela escrevia. Ele ditava. Ela acatava. Fizeram-se pilhas e pilhas de manuscritos desconexos sobre os mais diversos assuntos. O casarão enchia-se daquele cheiro empoeirado de folhas envelhecidas.
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    Um homem e uma mulher que não formavam um casal. Juventude que se fazia morta em natureza que não é humana. Paisagem estática de imagens. Movimentos de cenas repetitivas.
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    Ele lia em voz alta com aquela calma irritante. Ela escrevia a lápis com aquela pressa entediante. Não lhe aprazia o ato criativo, mas a obediência irrestrita de sua presa. Obsessão disfarçada de generosidade. E disso fez arte.
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    Ela não se dava conta da submissão a que estava condenada voluntariamente. Permitiu-se a enjoativa inanimação. Era objeto de longos olhares fixos, por lentes vivas e mortas. Foi registrada em todas as perspectivas possíveis, até mesmo as imaginárias. Chegou ao limite de sua sanidade e, enfim, libertou-se delirantemente de seu senhorio.
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    Sonambulava de camisola pelos tacos de madeira daquela prisão. Como que andando em campo minado, desviava das armadilhas espalhadas ao chão. Dançava o seu cio na sala-de-estar e entregava-se a tocar pelas mãos do vento. Amanhecia com os cabelos esvoaçados e um sorriso de gozo inconsciente. Estava viva.
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    Ele passou a cercar o vento, vigilante, todas a noites. Enchia balões e balões de ar compulsivamente, na tentativa de eliminar o prazer daquele corpo vivo - seu objeto de desejo voyeurista.
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    Mas o vento sempre retornava por alguma fresta, por mais que fechasse a sua casa. Sua fonte de poder opressor e possessivo não tinha onde se alimentar. Não conseguia admirar um objeto pulsante. Não lhe apetecia a vida... apenas o seu reflexo.
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    Por não poder com o vento, covardemente levou-a de volta ao mar. E no mesmo local onde a encontrou desfalecida, fez a fotografia final: natureza morta.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Alinhavando diferenças




É tantas que não cabe em uma só. E essas muitas vivem a discordar dentro dela. O observador mais atento percebe que, mesmo quando uma delas sobressai, as outras estão por trás, pedindo um tantinho de atenção.

Nascida de parto normal em 24 de maio de 1977, às 20h, em uma cidadezinha do interior, sua mãe levou 12 horas em trabalho de parto. Pudera! Deu à luz muitas meninas inquietas naquela exuberante noite de inverno:

A mais ensimesmada trancava-se no quarto e dançava, sozinha, em frente ao espelho, enquanto o mundo desabava do lado de fora.
A mais sensitiva sabia porque o mundo estava desabando e sofria com isso, guardando o segredo para si - sem impedir.
A espoleta, ao dar-se conta que havia um desabamento, partia, sem hesitar, e segurava os cacos, para evitar que alguém se machucasse. E voltava toda cortada.
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Foi uma adolescente namoradeira, mas gostava de estar só. Tinha muitos colegas, mas poucos amigos. Todos a conheciam, mas ela quase não conhecia ninguém. Estudiosa; sempre adorou aprender, mas destava ler. Copiava mais que criava. Obedecia e não sonhava. Tinha uma inquietude tão grande, que, ou andava torta, ou parava. Perfeccionista, em algum momento escolheu parar. Não queria ser torta na vida.
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Quando adulta aprendeu a gostar de ler. Parou de obedecer. Criou mais que imaginou. E voou - torta!
Percebeu que amigos valem mais que colegas; permitiu-se cativar e ser cativada. Namorou menos e amou mais. Conviveu com a própria solidão e amou mais ainda. Entendeu seus pais e perdoou seu irmão.
Aceitou o seu desassossego interior e, assim, exteriorizou-se.
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Descobriu que as muitas mulheres dentro de si poderiam conviver em paz. Fez com elas um pacto de vida: todas eram igualmente necessárias, não podia viver sem nenhuma parte de si. E passou a irradiar aquela luz que, desde sempre, esteve a acompanhá-la.
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É alegria, entusiasmo, boa vontade, generosidade... e humanidade exacerbada.
É também melancolia, preguiça, desânimo, solidão necessária... e humanidade excerbada.

Já nasceu torta, mas às vezes é reta.

Foi parida antiga e cresceu inovando.
É tantas. É uma. E às vezes nem é nada.
É o que foi, o que é e o que será.
Simplesmente ela, senhorita M.

06.09.2009

Retalhos em C

Cuidado com contos cantarolados.
Coração conta compassos!
Canções colorem cada caminhada.
Côncavas. Convexas. Complexas.
Cabe confeitar cacos?
Confundir cucas?
Cinza, caricatura.
Cobre, compostura.
Concentre-se. Ceda-se. Cálice!
Cacareja o coronelismo cristão...
Comunidade civilizada.
Cadê?
Cruz credo!
Confessionário congestionado.
Corpo condenado.
Carne coberta.
Clamor. Calor.
Cimento e cal.

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...

Cólera cicatrizada
continua cortando
cada canto
conflituoso
culminando carmim.
...
Carícias cálidas
confortam companhia
carente.
...
Cabeça coroada
corpo calado
com castidade cinturada.
...
Cidade com carroça
Cigarra canta
Capricho, cumpadre!
Cochicho, comadre!
Cachaça conta.
...
Coveiro convalesce
Carrancudo!
Cavando, cantando, cansando
Colhendo choros
Cobrindo cúmulos
Construindo catacumbas.


06.09.2009

Retalhos de retalhos


Queria que o medo me instigasse mais que paralizasse.
Queria que o medo não me causasse síncopes.
Queria que o meu medo não tivesse que dormir para sossegar.
Queria, enfim, ter medo.
E não medo do medo.

Retalhos fragmentados V

Cachoeiras causam em mim um impacto ainda mais arrepiante que o Mar.
Gosto daquela sensação das águas correndo entre as pedras, como se as acarinhassem por menos de um segundo. Águas que, àquelas pedras, não retornam mais.
Faz-me pensar sobre a efemeridade de tantas coisas deliciosas que vivemos e que, não é por não retornarem, que deixam de nos abraçar.




Lugar comum, pra mim, é todo lugar onde nos é dado o poder de chegar sem antes ter que passar por dentro de si.

30.08.2009

Retalhos poéticos X




Colando cacos


Sinto falta de mim
Estou repleta demais
Cheia!
Minha presença transborda
Não consigo me estancar.


Os portões estão fechados
E ainda assim vazo
Pelas frestas!
Dos cacos mal juntados
Deste mosaico de mim.


Costuraram-me pelo avesso
Minhas linhas estão expostas
Tortas!
Sou larga e apertada, comprida e curta
Não caibo em mim.


Já fui inteira, certeira
Há bem pouco tempo atrás
Caule, folha e flor!
Até que por brincadeira
Parei no mal-me-quer.


Em qual parte da estrada
Teria deixado de enxergar
Cega!
O tal bem-me-quer
Que costumava me adornar?


Haverá como retornar
Por caminhos já trilhados
Passados!
Sem perder de vista
Os espetáculos do acaso?


Deixei escapar...

Será possível resgatar
A alma chicoteada
O espírito domado, adormecido
A-cor-dar!
Deste fabuloso sono sem fim?


Quero buscar...


Expulsei-me de minha morada
E agora busco um lar
Abrigo!
Onde consiga olhar em volta
E fazer parte do jardim.


Sou toda espinhos
Mas já soube ser flor!


E há de haver quem enxergue
Além dos pingos de sangue
Que faço correr nos dedos
Medos!
Porque ainda tenho perfume...


24.08.2009
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Retalhos poéticos IX

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Um poeminha só

Hoje eu queria fazer um poema feliz
Para aliviar o que sinto
Quando meus olhos, inquietos, sorriem
E os lábios, curiosos, se entreabrem
Como se o quisessem seguir

Hoje eu queria fazer um poema triste
Para disfarçar a dor em forma de saudade
Quando o meu peito vira contorcionista
Fazendo elásticos malabarismos
Tentando não me machucar

Hoje eu queria fazer um poema ausente
Para estar longe de mim
E mais perto de você
Levando o meu beijo, o meu cheiro, o meu chamego
Buscando lhe abraçar

Hoje eu queria fazer um poema meu
Para me doar a você
Em densos versos, intensos
Saudosos, saltitantes, a pulsar
E que em seus braços haveriam de pular!

Hoje eu queria fazer apenas um poema
Para soprar o vento até você
Levando palavras que desenho no ar
Em sussurros, a lhe dizer:
Saudade, saudade de não lhe ter!

20.08.2009
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Costurando retalhos VII

Um novo cantar...

 “And I find it kind of funny, I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying are the best I’ve ever had
I find it hard to tell you, I find it hard to take
When people run in circles, it's a very, very
Mad world…”


Pensa, logo existe. Mas não é. Ser é coisa pra quem é de vida vivida – vívida! A sina de pensar é dada a quem está, seja de passagem, de viagem ou de pura montagem. Ah, essa vida pensada, ofício de gente que quer saber o um, se perguntar o um... palco ilusório de um “estar-no-mundo”, platéia de uma poltrona só. Estrela que se espanta à própria explosão.


Sua canção é triste demais para ser cantada, mas nem sequer sabe escutá-la. Põe-se a cantá-la em pensamento, chorando sua triste e sufocada letra, que segue capenga, sem Dó Maior. Os pensamentos ocupam de tal forma a sua mente, que as melodias passam despercebidas. E de tanto pensar, só pensa que pensa. Não se lembra de matutar que a tristeza da sua cantiga de ninar – chamando a morte em vida – poderia revestir-se de outro som, ter um novo tom.


Triste é pensar que sente o pensamento como se fosse sentimento. E chora as lágrimas de um caminhar elocubrado, com a sanguinolenta dor que julga ser fardo seu. Está condenado a ser sofredor, pensando-se pecador de erros inominados. Demoníaca Inquisição, que sobrevive no cerne de si! D’onde há de vir a julgar os vivos e os mortos?


Expectador de sua própria encenação, protagonista de um dramático monólogo que chega a dialogar com a sua dor. O palco da vida é grande demais para a sua dança desajeitada. Deixou seu canto de canto, em busca de um encanto que, por tanto desacreditar, espera que caia dos céus; salte das velhas e mofadas páginas de livros já lidos e relidos.


Sonha, deseja, busca, espera e se desespera... de tanto pensar! Mas insiste: pensa, logo existe. Que triste.


Chiste! Em sono profundo encontrou-se a sonhar fantasias de um luminoso sentir. Pedaços de vida, cacos de esperanças adormecidas, retalhos de desilusões descosturadas, restos do que jaz em morte morrida. Precisava escolher o que iria carregar – antes de acordar!


Oh, visão dos céus! – da vida, aliás, refletida na Terra, aqui embaixo mesmo, onde também se pode brilhar, e não apenas morrer de fome... do além, de qualquer deglutir a mais. Repousava em sua face aquele hipnótico sorriso que só se mostra em descuido. Um sorriso que não tem nome, que não se pode pensar. Mas é.


Seu sonhar era embalado por canções nem tão tristes, onde letras faziam-se dispensáveis diante da emudecente beleza d’Aquela melodia tão cheia de possibilidades: Vida! Uma nova forma de cantar e encantar... a Ossanha. Porque ninguém está quando quer. É.


25-08-2008

Costurando retalhos VI

“As penas que eu mesmo sinto de mim”



Pior é que tinha consciência de cada passo mal calculado de sua estratégia fracassada. Se ao menos pudesse intuir o que jaz no inconsciente; o âmago de si. Restava-lhe, ainda, esta última chance: explorar o selvagem centro daquilo que vive dentro. Caminhar daqui pra cá. Viajar.


Mal dormia e já desejava sonhar. Insônia! Oh, acolhedora companheira de tantos cafés e cigarros; precisava, agora, deixá-lo partir naquele adormecer desperto que o faria, finalmente, acordar. Seus sonhos revelariam bem mais do que a sua insignificante existência terrena. Agora era ele; Aquele que existe entre fantasias de silêncio e floretes de honra.


Andava em círculos, dentro de si, às margens do vale de lágrimas em que chegou a nadar, sem se afogar. Quanto mais era marginal, mais seguro aparentava estar. Porque é fácil sentir-se bem quando tudo ao redor parece mal. E não importava quão assustadora era a sua face, simplesmente não encarava seus espelhos.


Sentia-se como sendo sugado pelo ralo de um imenso esgoto de alucinações. Uma enxurrada de lama, temperada com o sal de suas lágrimas, resgatava-no das margens de si. Girava, girava, girava – torcendo para que sua mente acertasse na hora de parar -, em direção ao centro. Sabia, agora, o que era ser espetáculo. O palco era só seu.


Sentou-se em meio a todos aqueles borrões; cessões contínuas de si. Pilhas e pilhas de palimpsestos aguardavam por uma nova escritura, um novo desenho, nova forma, um gigantesco vir-a-ser. Mas, certeza incerta que costumava conhecer, ao dar-se conta que era Ele o seu próprio desejo, quis apenas não ser! Escolheu não desejar. Desceu do palco, saiu do centro, sentou-se de canto, na única poltrona da platéia. E pôs-se a observar.


Era como se estivesse dentro de uma mostra de trailers de cinema. Viu pedaços da sua vida passando e não os podia alcançar. Novamente a sensação de incompletude, daquela existência que não era lógica; tinha um nexo disléxico. Quanta coisa havia ficado por acabar sem nem ao menos começar...


Percebeu que em sua vida houve comédia, não apenas tragédia – e que o drama ficou por sua conta! Não era dado a melodias, mas respirava Tchaikovsky, em sua Sinfonia Manfredo. Sentiu saudade de si. Queria ser. Estaria preso àquele longínquo observar-se? Estaria, já, enquadrado, para a posteridade? N’aquela tela, era natureza morta, estando ainda vivo?


Se a cada passo de vida deixava de existir, já estaria morto? Afinal, qual seria o último passo? Teria como saber, para que não o ousasse pisar?


Mas com a coragem que somente os covardes têm, recusou o ponto final. Após ter conhecido o melhor e o pior de si, apoiou-se em sua Sombra - fiel escudeira. Desistiu de desistir. Arriscou esperar. Desejou sonhar, só mais uma vez. Queria desvendar o tal mistério: O que seria um sonho, depois de realizado?


E deu-se O Grito, tal qual Munch desenhou...


22-08-2009

Costurando retalhos V



“Sei lá, a Vida tem sempre razão...”
 Vinha de tão longe, que nem mais sabia de onde partiu. Sentia-se partido, como se o houvessem parido pela metade. Algo de si ainda estava por nascer. E por sua vida ter sido tão pequena – ínfima até – seguia na esperança de que sua outra metade nascesse grande, para que pudesse, enfim, ter algum brilho na vida.


Tinha os pés ásperos da inquietante permanência. Trazia na face rugas cravadas pela espera frustrante, longa busca pela tal completude que não lhe fora permitida sentir. A vida não desejou lhe oferecer benevolência alguma, enquanto ele pensava que sua Fé removeria as montanhas que o separavam do resto da humanidade.


Era só, e só, um ser só. Desconhecia os gostos mais doces, os toques mais suaves, as mais belas melodias, as vivas cores da alegria de "se ser". Sua alma habitava um triste e enfadonho lar. Tinha vontade de vomitar toda a sua existência para que pudesse enxergar os restos de si, a sopa insossa que conseguiu preparar com as mãos que não podem alcançar as estrelas. Queria sentir - por misericórdia que fosse - algum sinal a lhe guiar, algum resquício ou migalha de Amor destinado a Ele. Por que não seria digno que entrassem em Sua Morada? Seria salvo?


Calava-se por não ter coisa melhor a dizer que o silêncio berrante da sua imagem. Desaprendeu a sorrir já na infância, quando lhe trocaram os brinquedos por espelhos. Oh, Senhor, queria apenas não ter olhos para enxergar tanta feiúra! E nem mesmo sabia ser feio por fora; o que escapava de dentro era arrogantemente espantoso. A humildade de seus finos traços externos - quase que belos - fitava o chão, sem coragem de erguer a cabeça acima dos joelhos ralados de tanto pedir perdão por existir.


Não era cheio de graça, mas rogava a sua Maria. Também Ele era fruto do ventre. E queria viver antes da bendita hora da sua morte. Se bem que lhe passava pela cabeça a idéia de que morrer seria, enfim, a sua missão. Não vinha fazendo nada mais interessante que ir-se morrendo aos poucos na Terra e subindo “um cadinho” aos Céus.


Mas o sol era de rachar e não podia mais se dar ao luxo de pensar. Isso era coisa pra gente inteira, não para um mal acabado pedaço, fruto de parideira desconhecida; Ele. Tinha pressa e precisava ir devagar. Já era mais que tempo de esticar os braços e não clamar aos céus.


Sim, era hora de suas mãos alcançarem Aquela metade sua, que brilhava bem em cima de suas ignoradas idéias. Precisava andar de mãos dadas consigo mesmo, fazer as pazes com seus espelhos, curar Aqueles joelhos e não mais os sacrificar por qualquer esmola desalmada de perdão. Santificado era, também, o Seu nome, porque também era Deus.


E que fosse feita a Sua vontade, para sentir-se humano, ao menos uma vez.


21-08-2009

Retalhos poéticos VIII

Apenas um Toque


Quero o seu toque
Espero que se toque
E simplesmente toque
A música que embora sua
Agora habita em mim.
Sem mais toc-toc!
Deixei portas e janelas abertas
Sensações despertas
Idéias espertas
Que é pra você entrar!
- e sei que vai ficar -
Ah, não espere que eu lhe prenda
Mas que lhe surpreenda
Compreenda
Sem me fazer prenda
Que é pra você usar!
Boneca; procure em prateleiras
Não me encontrou em fileiras
A minha roda nem tanto gira
Enquanto na vida anda a fila
Porque eu não sou brinquedo, não...
Que é pra você jogar!
Mas se em mim deseja apostar
Sabendo me enxergar
Cuidando ao me tocar
Querendo me desvendar
Tentar...
Provar..
Velar.
Ah, assim vai dar!
Sou toda de você
- e jamais de outro alguém -
Que é pra você se lambuzar!

20/08/09

Retalhos poéticos VII

Dança da Solidão


É silêncio. É pergunta.
Uma ausência total de sentidos...
Para tudo o que sente e deseja
Não dispõe de palavras para expressar.
Sua falta de posse sobre si mesma
- e sobre o mundo! -
Reduziram-na a si.
Como criança mimada, especula em vez de existir
Gasta pouco da vida, para ela não acabar
Pois sabe que, o que amadurece plenamente
Pode bem cedo apodrecer.
Teme que lhe escape – esse escape!
É intelectual, mas escreve com o corpo.
É angústia. É procura.
Silêncio extasiante de um simples estar-no-mundo.

18-08-2009

Retalhos poéticos VI

Vozes de Mãos Dadas

Tenho mãos vazias de tanto esperar
Mãos abertas, trêmulas, a transpirar
Que pedem, a todo tempo
Que as suas as venham buscar.
Sinto saudade
Dos ventos que lhe embalam em nuvens
E fazem-lhe algodão-doce
No meu parque-de-diversões!
Pássaros amantes
Apreendem o seu cantar
E seguem-me pelas ruas
A can..ta...ro....lar
Melodias do seu olhar!
Tenho mãos abertas
Que fazem preces sem rezar
E agradecem ao luar
Por não lhe poderem tocar.
Românticas mãos sonhadoras, afagadoras
Desejando platonicamente - e ardentemente
Os dedos seus sentindo os meus
N’uma sinfonia de silêncio.
Tenho mãos inquietas, inquietantes
Que indicam
      Sinalizam
           E deslizam
Como doces vozes ao ar.
Tenho mãos que buscam ter voz
E voz que fala com as mãos.
E, hoje - só por hoje! - eu queria
Nossas vozes de mãos dadas, a passear...

17-08-2009

Retalhos poéticos V

Olhar do avesso


Não serei expectadora de um mundo inventado
Não me acostumarei a olhar pelos fundos
Imundos jardins de descasos
Varridos com escovas de ácido
Que é pra ninguém ver!
Não serei cúmplice da miséria humana
- não aquela que jamais poderei acalentar
Mas a que se vale do poder
Do não fazer; não mexer, para não feder.
Cultivarei a indignação, soltarei o grito
Tenho a ânsia inalcançável da revelação
Da civilização
Civilidade, afinal!
Meus sonhos vivem a me acordar
Clamando pelo observar que não descansa
Pela esperança que não se cansa
Pelo expurgo da vergonhosa dança
Social, formal, teatral!
Não, não serei partícipe de um crime
Omissivo, passivo... lascivo
Soltarei a minha voz
Mostrarei a minha face
Incitarei almas ao pecado Ideal
Além do bem e do mal...
Onde o terror
Ninho quente não faz
Porque eu – também! –
Sou filha das trevas
E o terror, tão somente
Pai da Moral.
 
17-08-2009

Costurando retalhos IV

A Beleza D’ex-Conhecida


Há anos era nascido, mas só agora aprendia a engatinhar. N’ausência de quem lhe indicasse um caminho, partiu - curioso, a desbravar. Arrancaram-lhe as grades do cercado d’Aquele onírico repouso de sensações. Ora cá, ora lá; estava a perambular, sem sonambular.

Tateava objetos ao chão e os levava à boca, saboreando o exterior do seu exterior, como quem ingressava tardiamente no universo de sentidos e sensações. Fez do Mundo a sua morada; construiu castelos de areia, com a sabedoria infantil de que as ondas do Seu Mar sempre os haveriam de levar, num eterno construir e desmoronar. Balanço divino do que em Cima está a guiar Aquilo que embaixo há!

Adormeceu em despertar. Escondeu-se do espetacular movimento dos astros, que já não dançavam como outrora. Fez os Céus descerem à Terra, em sua busca. Humanizou divindades; despediu-se dos amigos imaginários: Aqueles rastejantes seres – Eles! -, que melancolicamente enfeitavam sua caminhada. Vagou pela noite buscando Seu clarear. Queria, agora, ser – um Ser - solar. E acordou esperto, bem mais que desperto! Ah, estava tão perto e tão certo, com Aquela certeza que não é vulgar: chegaria Acolá.

Sem buscar respostas, sentiu nos joelhos a ardência incômoda dos que insistem no engatinhar, podendo – e já! - andar. Olhou para os Céus, que não mais estavam Lá. Os Hematófagos subiram ao mais alto do Mundo Seu, buscando alimento em seu nascente e crescente Viver. Corria sangue em seu olhar, mas lacrimejava flores. Aos poucos - e bem pouco - coloria sua triste face. Porque Rainhas não brilhavam, não! Cintilava ele – e só Ele! Aquele.

Beleza que se fez suplício: ah, não poderia aceitar! Desconhecia o "belo elo" venusiano, presente em Todo Lugar: Cá, Lá, Acolá! Não podia enxergar. Cegava-se diante da beleza do Mundo Tão Novo Seu, agora, já sem luar. Contemplava ao longe – distante de Si – o bailar dos humanos a ensaiar o teatro da Vida Real. E realizou: somos todos nós, seres em cascas de Noz.


Sozinho, perdido, onde era Aquele lugar? Será que, em algum ponto da Roda, haveria de andar? Condenar-se-ia, voluntariamente, à sina de rastejar – ops!, engatinhar?

Tenho vontade de sussurrar n’Aqueles ouvidos já surdos de tanto gritar: liberte-se e ignore-a! Experimente. Tente. Vá em frente! Insensatez delirante que habita o seu pensar e contamina o Seu sentir. Viva, que se livra!

Assim conseguirá, finalmente, imaturo ser nascente: viver estando morto, já morto-vivo que é. E ainda insiste em procriar...
 16-08-2009

Retalhos poéticos IV

Desenhos no ar


Sinto a sua falta
Em cada pintura no ar
Com letras coloridas
De tão longe a perfumar

Quero-te tanto
E, no entanto,
Insisto em afastar
A menor tentativa de amor
Que em nós possa brotar

Com minhas prosas confusas
Meus versos capengas
Minh'alegria assustada
E um sorriso infantil

Tento dar-te os sinais
Controversos
E tenho sentimentos
Inversos

E por mais que tenha cores
Flores e jardins
Pássaros a cantar
Voem, voem
Mil léguas a me buscar!

Continuo, tola, a escolher
Camuflar o amor
Tão ingênuo e já febril
E fazer dos dias meus
De um Sentir que não sabia mais

Puros e inconfessos
Versos.

15-08-2009

Corte sem Costura

Infarto de Saudade


 
Quisera neste meu sangrar
Selvagem La Loba que sou
Enxergar através e além
Do que a pele – simples meia-fina
Pode ocultar


Mar vermelho em meus olhos
Enxurrada de uma só cor
Deixa um gosto saudoso n’alma
Daquela pintura torta
Bordas manchadas
Divinos borrões!


Ei, você aí, posso brincar?
Que cor tem o céu, afinal?
Violeta!
Que peguei no jardim pra você
Enfeite com ela os cabelos
E moça mais bela jamais haverá!


Saudade do lápis-de-cor
Da massa-de-modelar
Para que possa dar forma
Ao mundo que desejar


E quando tiver que partir
Para em um só minuto voltar
Feliz, direi, a sorrir
O que é a mais pura verdade:


Volte logo, cedinho
Quando também o sol chegar
Ou então, de tanta saudade
Assim, ó! ... irei infartar!



15-08-2009

Retalhos fragmentados IV

Sobre a curiosidade humana



Casou-se com a máscara que encobria o conteúdo. Fez pacto com a aparência que, "a-parente-mente", lhe agradou. Na alegria e na tristeza, Voilà! Personificou o seu estar acompanhado e saiu às ruas, de mãos dadas. Aprazia-lhe o sentimento da não-solidão. Agradava-lhe o palco e a platéia a aplaudir – a personagem ou a persona, tanto faz.

Fez juras ao amor eterno, de jamais lhe interrogar. Pensou que, o combinado, caro, não sairia. De sua casa desconhecia os cômodos, que ao passar dos anos instigou-lhe incômodos. Quis abrir a porta – justo a que importa! - cuja chave não lhe permitiu tocar.

Deu-lhe, carinhosamente, a ingestão do longo sono. Os corredores pareciam não ter fim; labirinto do qual buscava escapar. Comeu do fruto proibido, quebrou as juras e a porta então se abriu. Era ela, enfim: a máscara caiu! Fez-se O Grito na alvorada; intocável e distante estava a sua assustada – e assustadora – face.

Chorou lágrimas de sangue. Era o grito e só o grito. Desmascarada, parecia tela; mas era ela, ela era.

Sapos caíram dos céus. Oh, angústia; alma deslavada!


14-08-2009

As (entre) linhas

...



Retalhos poéticos III

Centro de Mim

De tudo quero muito
Muito pouco quero tudo
O tempo esquenta
Pega fogo
E sinto frio ainda assim
Há calor vindo de ti
Sensação infernal
Que de tão quente
Esfria a falta
Onipresente
Da tua presença
No centro da tela
                 Cinza
A visão pela janela
Por pintar
          Talvez
Cores derramadas ao chão
Lacrimejadas por meu pesar
A desejar
              Infinitamente
Que ao menos hoje
Tu saias da cena
Do cenário
      Do centro
               De mim
E que te cubras
Com o mesmo cimento
Que insististe em me moldar.

14-08-2009

Costurando retalhos III

Céu de Rainhas

Caminhante sabe que o caminho se faz ao caminhar. Mas de tantos caminhos já traçados, perdeu-se n’Aquelas (des)trançantes encruzilhadas, que não o levaram de Cá para Lá. Foi parar: sabe-se-Lá! Que mundo Acolá; oxalá Céu de Rainhas!


Hipnotizado, engraçou-se – e caiu em graças! - às Divas Noturnas. Ao desencontro total de si mesmo - e por faltar-lhe senso e direção - restou-lhe Aquela empoeirada humildade, persistente companheira de jornada e conselheira, arrogantemente ignorada, apenas até então.


Ajoelhou-se aos Céus, em clamor, pedindo às Divas: Céu de Rainhas; dá-me paz! E tão certo como a Terra é redonda, há que existir outros céus, onde dispostas e expostas Estrelas façam mais do que insinuar: cantem e encantem, dancem ao Luar, clareando o Obscuro interior onde habita um Ser de luz.
 Sem mais Rainhas – e sendo tão menos Rei – finalmente apaixonou-se por virgens horizontes, sedento por desbravar a Lua-Nova-Vida que, aos solavancos, escolhera levar.


A idéia de aproximar-se para, então, afastar-se, parecia morrer antes mesmo de nascer. Ao final – e afinal -, por que se afastaria? Era de se pensar, mas preferiu, por ora, sentir. Gozou seu coração a fervilhar; impossível disfarçar o tremor nas mãos e pernas a bambear! Havia chegado ao desfecho d’Aquele passeio pela Roda das Mouras; seu mundo girou e retornou ao ponto de partida. Entendeu que a Fortuna está a rodar, que altos e baixos são o Real caminhar.


E já que a Terra é redondamente circular, tudo gira ao Seu redor: inclusive ele, Aquele. O caminho não se dá ao contrário, jamais. Somos meros expectadores das voltas dos Astros, e não astros de nossas próprias expectativas.


Sentiu, enxergou, cheirou, tocou, provou. Preencheu-se de sensações. Estava inteiro outra vez, um Ser apaixonante e apaixonado, amante e amado... Senhor de sua própria história, girando com a Roda, a bailar...


Oh, ingenuidade dos sofredores, que afasta para aproximar e aproxima para afastar! Oh, medo dos amantes - maliciosamente pueril – de não realizar o óbvio: Quem chega e sai ou sai para chegar, certeza incerta [como a Terra não é plana, não!] é que não gosta – e já o sabe!- do que vai encontrar por Lá.


14-08-2009

Retalhos poéticos I

Alma Rasgada


Oh, Amor! Quisera compreender os tortuosos caminhos que te trazem a mim!
Calmaria desassossegada, turbilhão de êxtases, remexer de entranhas, ressacas morais.
Diante de ti sou megera e domada: faca em punho para ferir-te e curar-te ao final.
Mostra-me o lembrar que se esquece de esperar por ti.
Faz-me crer que, na longa espera, viverei - apesar da tua ausência corroer-me as pontas dos dedos.
Fixa meus olhos adiante, coloca-me antolhos, desvia-me do teu caminhar na esbórnia.
Dá-me forças para resistir quando chegares – pois chegarás; eu sei.
Desejo-te com tamanha insensatez, pungente insanidade instaurada sem meu consentir.
Minto! Aceito. Desejo. Espero. E consinto.
Vem, amor!,e não demores demais. Encontra-me inteira.
Temo que não chegues a tempo de colar os cacos desta alma que a tua falta rasga.
E que de tão ferida, sangra, desfalece e se cansa de querer.


12-08-2009

Costurando retalhos II

Uma tragédia egóica.


Partiu para outras Terras, sem saber, sequer, se o solo daria a colher o que plantar. Foi-se daquele tenebroso lugar, de onde jamais quis sair – e para onde insiste em voltar. Mas, por que partiu? Expulsaram-no de Lá?

Era noite de lua Nova e a mansa escuridão celeste clareou, por intermináveis segundos, a cegueira do seu olhar. Percebeu que somente nas trevas conseguia andar sem bengalas. Aprendeu - mas apreendeu? - a desviar de pedras, crateras, penhascos e arbustos. Desdenhou o fio por desconhecer a meada e seguiu adiante, sob a prece d’A Lua que se esconde, a iluminar refugiados d’Aquel’Outra Lua, que faz espetáculo. Não lhe agrada o espetacular. Regozija-se na lama.


Em seu caminhar fez-se clarão. Sua busca pelo Bicho papava não apenas sua carne – sanguessugava, também. Enfraqueceu-se rapidamente e precisava chegar ao destino, não aceitava fraquejar! Como honraria seu nome - macho que é - sem poder levantar? Sempre de pé, a andar, ensinado a jamais recuar. Mas cego, ainda - condição que, a essa altura, se esqueceu de lembrar.


Passou por jardins, flores, macieiras, princesas e cavalos alados. Guardou na memória, somente – e tão somente! - a imagem entorpecente de seres rastejantes enfermos, gemendo e clamando ao Luar. Não pegou as migalhas de pão espalhadas ao chão. Deixou para trás o sapato de cristal. Não escalou as torres de tantos e tantos castelos, já que tranças de Rapunzel não lhe servem de impulso. Sonha com um – e só um! – Chanel.

Chegando ao destino, sentou-se na pedra que pesava em seus ombros. Mirou seu convalescente olhar para os Céus. Qual daquelas seria a Torre a escalar? Onde estaria Aquela que a fez caminhar? (...) Foi então que nasceu o dia e o Sol pôs-se a brilhar, cessando o clarear que a benévola Noite o permitiu presenciar. Caiu em si, tinha que retornar. Os lençóis não foram lançados, não havia onde se agarrar.

Retornou pelo Caminho do Vale, para que em lágrimas pudesse nadar. Cessada a nitidez da escuridão, não mais queria enxergar - senão o seu próprio pesar. Agarrou-se, novamente, a sua enfermidade, sem notar o quanto sua solidão era egoísta e egóica.

E pôs-se a caminhar, caminhar. Cego. Blindado. Em círculos.

12-08-2009

Retalhos fragmentados III

Não há normalidade no usual. O trivial não carrega, transporta. E transportar vai além de apenas modificar a localização das coisas; transportar desloca a alma.
O extravagante tem peso, vaga mais do que sua massa comporta transportar. O extravagante carrega-se de si. Aparece. Grita. Clama por atenção. Não há transporte que consiga deslocar uma alma extravagante.

A trivialidade, o comum, o usual - que nada possuem de normal - levemente seguem o vento, passam despercebidos. Deixam suas marcas. E ficam.

    
12-08-2009                                                          

Costurando retalhos I



Sinto-me, agora, como a alma trêmula d’Aquele príncipe cego que, de tanto enxergar, cegou-se num vale de lágrimas. A cegueira é o delírio da visão de um impossível, que se sabe possível e pulsante, a desejar libertar-se dos grilhões formigantes de fuga. Quiçá, oh, príncipe, não seja O Castelo o seu lugar! Arrombe os portões e parta para O Mundo – o lado de cá. Pedras anestesiam como bolhas; mas estas, ao menos, permitem observar o correr dos dias perdidos em isolamento consentido: têm janelas de vidro. Suba no mais alto d’Aquela Torre e solte o recalcado gritar: Ó Zeus, liberte-me ou leve-me consigo! É chegado o tempo de arriscar o pulo ou permanecer sonâmbulo, a vagar pelos corredores d’O Castelo que já não o abriga mais – a carne, talvez; mas a alma jamais. Lembre-se de esquecer as fantasias de sonhos despertos, para que possa, por fim, descansar os ombros caídos de tanto pesar.

O Mundo - lado de cá - permite que princesas existam além das linhas imaginárias do perturbador pensar. N’Aquele Castelo elas estão adormecidas, ainda que belas. Calorosos príncipes anestesiados e belas princesas adormecidas – eis o que muros de pedra constroem!

                                                      

Sê sagaz. Minerva já desenrolou o novelo. Siga-o e mate a Fera!


12-08-2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Puxando o fio da meada - Começando a costurar

Recado ao Imperador A.

Se ao menos percebesse que sua tristeza é alegre, suas linhas seriam tortas como um despertar assustado. Carrega em cada letra o peso de um tijolo retirado do castelo dos seus sonhos - que, de fato, só existira lá. A leveza com que se entrega é ao mesmo tempo um sussurro e um berrar. Caminha para clarear o pensamento sem saber - sabendo! - que afasta qualquer fresta de sentimento das portas do seu pesar. Ah, se entendesse que o pesar não pesa o que insistimos em carregar! E que a leveza nem precisa sussurrar: cresce no silêncio.


Pesaria o sentir. Pensaria o pesar. Devolveria aos sonhos, o seu castelo, tijolo por tijolo, com a leveza de quem nunca os houvera tirado de lá. E, assim, receberia novos hóspedes.

(11-08-2009)

Retalho sem costura


Que o amor que sinto por ti me dê a coragem de deixar-te livre para experimentar-se.
Que minha pequenez não o impeça de seguir caminhos distintos dos meus, ainda que a considere covardia. Águia não sabe ser galinha; precisa voar.
Não me culpe por amar-te tanto que o tremor nas asas não resista ao longo vôo.
Por amor tão visceral quero-te livre, inteiro, a brilhar.
Mas que os Céus não permitam que seu brilho me atinja a visão, a ponto de não mais voar e ser galinha, e nada mais.

(11-08-2009)

Dois retalhos em Um




Dois é mais solitário que Um.
O Um é disposto, exposto, enquanto o Dois é apenas composto e talvez, até, imposto.
Passeia-se com o Um, de alma enfeitada, desejando que todos a enxerguem.
O Dois esconde-se com medo de que a descubram e a tentem.
O Um quer a Vida. O Dois tem medo de não a suportar.

(11-08-2009)

Retalhos fragmentados II

Receio que meu medo tema o seu próprio despertar e apavore-se de si antes mesmo de nascer.
   

                                                 

Hoje eu só queria desejar, com a pulsão do indesejável, este ser que meu recalque transporta para o corpo e que dói nas entranhas. Meus delírios são orgásmicos: neles sinto o prazer arrebatador de tudo o que ainda não me permiti.
O prazer causa-me tanta dor, que alivia a alma. A dor é o que de mais sincero trago em mim. Por isso, todas as noites minh’alma geme de um prazer deliciosamente doloroso.

Amou-o com a fome de quem nunca soube se doar. Prendeu-o com a leveza de quem nunca teve a receber. Conquistou-o com a simplicidade de quem - astutamente - soube ser burra.
(10-08-2009)

Retalhos fragmentados I





Só consigo ausentar-me de mim através d’Outro. Eis que se instaura o meu desespero: o Outro nada mais é que um reflexo turvo e mal acabado de mim. Ou a mal acabada sou eu?
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Levantou-se ao fundo da sala e questionou-me: por que não me dizes logo o verdadeiro sobre o verdadeiro? Pensei: impossível fazê-lo, porque só teria a dizer que é o oposto do falso. Mas a verdade sobre a verdade, esta sim, poderia ser dita sem ter culhões: a fêmea não é macho!
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Sim, sou fraca. Não ouso revelar. E não o faço porque seria como um vômito febril das ingestões de toda uma existência.
A falta de obstáculos tornou-me inerte. Há em mim um ser que necessita andar sobre o fogo.


Tenho medo da liberdade, de não saber me ser sem os nós que me atam aos pés da cama. Não duvido que me assuste de mim quando finalmente me for e me vier sem enxergar uma gaiola para retornar. Sentirei o avesso da minha prisão e pensar nisso me apavora.

(10-08-2009)

Um quase-retalho



Minha face plácida é sonsa. 
Gestos polidos seguem a monotonia interminável dos meus dias aqui. 
Condene-me pelo politicamente correto que viola as minhas leis. 
Prenda-me por não ter a coragem de ser tão livre a ponto que não mais me compreenda o cidadão de bem.
Permita-me ausentar-me desta imagem minha que não desejo lembrar, porque covarde é. E ser covarde é ser pequeno de alma - se é que ainda a abrigo.
Não, eu não sou o diabo! 
Fuja de mim, não por isso - porque eu tenho, sim, o pulsante calor dos inquietos desassossegos infernais -, mas por não conseguir enxergar além da minha delirante sensatez.

(10-08-2009)