“As penas que eu mesmo sinto de mim”
Pior é que tinha consciência de cada passo mal calculado de sua estratégia fracassada. Se ao menos pudesse intuir o que jaz no inconsciente; o âmago de si. Restava-lhe, ainda, esta última chance: explorar o selvagem centro daquilo que vive dentro. Caminhar daqui pra cá. Viajar.
Mal dormia e já desejava sonhar. Insônia! Oh, acolhedora companheira de tantos cafés e cigarros; precisava, agora, deixá-lo partir naquele adormecer desperto que o faria, finalmente, acordar. Seus sonhos revelariam bem mais do que a sua insignificante existência terrena. Agora era ele; Aquele que existe entre fantasias de silêncio e floretes de honra.
Andava em círculos, dentro de si, às margens do vale de lágrimas em que chegou a nadar, sem se afogar. Quanto mais era marginal, mais seguro aparentava estar. Porque é fácil sentir-se bem quando tudo ao redor parece mal. E não importava quão assustadora era a sua face, simplesmente não encarava seus espelhos.
Sentia-se como sendo sugado pelo ralo de um imenso esgoto de alucinações. Uma enxurrada de lama, temperada com o sal de suas lágrimas, resgatava-no das margens de si. Girava, girava, girava – torcendo para que sua mente acertasse na hora de parar -, em direção ao centro. Sabia, agora, o que era ser espetáculo. O palco era só seu.
Sentou-se em meio a todos aqueles borrões; cessões contínuas de si. Pilhas e pilhas de palimpsestos aguardavam por uma nova escritura, um novo desenho, nova forma, um gigantesco vir-a-ser. Mas, certeza incerta que costumava conhecer, ao dar-se conta que era Ele o seu próprio desejo, quis apenas não ser! Escolheu não desejar. Desceu do palco, saiu do centro, sentou-se de canto, na única poltrona da platéia. E pôs-se a observar.
Era como se estivesse dentro de uma mostra de trailers de cinema. Viu pedaços da sua vida passando e não os podia alcançar. Novamente a sensação de incompletude, daquela existência que não era lógica; tinha um nexo disléxico. Quanta coisa havia ficado por acabar sem nem ao menos começar...
Percebeu que em sua vida houve comédia, não apenas tragédia – e que o drama ficou por sua conta! Não era dado a melodias, mas respirava Tchaikovsky, em sua Sinfonia Manfredo. Sentiu saudade de si. Queria ser. Estaria preso àquele longínquo observar-se? Estaria, já, enquadrado, para a posteridade? N’aquela tela, era natureza morta, estando ainda vivo?
Se a cada passo de vida deixava de existir, já estaria morto? Afinal, qual seria o último passo? Teria como saber, para que não o ousasse pisar?
Mas com a coragem que somente os covardes têm, recusou o ponto final. Após ter conhecido o melhor e o pior de si, apoiou-se em sua Sombra - fiel escudeira. Desistiu de desistir. Arriscou esperar. Desejou sonhar, só mais uma vez. Queria desvendar o tal mistério: O que seria um sonho, depois de realizado?
E deu-se O Grito, tal qual Munch desenhou...
22-08-2009
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